Os próximos anos vão colocar à prova algo que, por muito tempo, tomamos como certo: a ideia de que proteger direitos individuais automaticamente beneficia toda a sociedade.
A IA está mostrando que não é tão simples assim. Cada nova regra que adicionamos sobre dados ou conteúdo pode, no papel, proteger a autonomia individual. Na prática, porém, muitas vezes limita o quanto os ganhos coletivos podem avançar. E normas desenhadas para proteger indivíduos podem acabar protegendo a própria desigualdade, ao barrar tecnologias que poderiam ampliar oportunidades para o conjunto da sociedade.
Pense em um exemplo simples: imagine se todo conjunto de dados usado para treinar IAs educacionais tivesse de obter consentimento explícito e individual de estudantes e docentes. Diante desse ônus jurídico, sistemas públicos simplesmente evitariam usar esses dados. Com isso, escolas poderiam perder acesso a ferramentas de aprendizagem adaptativa capazes de melhorar resultados de alfabetização.
Esse é o verdadeiro desafio: encontrar um equilíbrio entre crescimento e direitos. Quando a regulação se torna rígida demais, acabamos protegendo as pessoas do próprio progresso. Nossas políticas econômicas ainda se orientam por eficiência, mas nossas regulações muitas vezes são movidas pelo medo. A União Europeia agora enfrenta dificuldades para recalibrar normas criadas nos anos 2010, influenciando abordagens regulatórias no Brasil e em outros países por meio do chamado efeito Bruxelas.
Precisamos estimular mais pesquisa, conhecimento e debate sobre os impactos socioeconômicos da IA e entender que essas inovações não são fins regulatórios em si mesmas, mas meios para promover ganhos coletivos e fortalecer a autonomia.
E, embora essa perspectiva macroeconômica seja central para compreender efeitos agregados, ela não deve desconsiderar direitos individuais: há fundamentos morais e de princípio legítimos que justificam a proteção. O objetivo é oferecer uma lente complementar que revele como escolhas regulatórias afetam a sociedade como um todo.
Em 2025, o Reglab vai lançar pesquisas inéditas que trazem essa perspectiva complementar para o debate:
- IA e impactos da personalizaçãoEste estudo econométrico demonstra o impacto da personalização orientada por dados no PIB do Brasil e também como regulações restritivas, ou interpretações mais rígidas das leis, podem limitar esses ganhos.
- IA e indústriaEste estudo combina grupos focais e pesquisa em dados secundários para revelar como o setor manufatureiro, que representa cerca de 1/4 do PIB brasileiro, está acompanhando e avaliando criticamente o debate legislativo sobre regulação de IA no Brasil.
- IA e Estados no BrasilUm playbook prático, orientado por casos, que examina como governos estaduais podem atuar como laboratórios de uma governança de IA equilibrada, criando clusters de inovação e parcerias público-privadas que impulsionem o desenvolvimento regional.