Reglab – centro de estratégia & regulação

O Impacto do BookTok no Mercado Editorial Brasileiro: Dados e Comportamento de Consumo

O estudo inédito “BookTok Brasil e as novas experiências literárias”, desenvolvido pelo Reglab, investiga como as interações digitais no TikTok se manifestam no contexto offline das livrarias. O ecossistema digital do BookTok consolidou-se como uma infraestrutura informal de descoberta e validação social, impulsionando vendas de livros.

Neste estudo setorial, analisamos como redes sociais, como o TikTok, transformam o ato solitário de ler em uma prática coletiva e de pertencimento. Investigamos fenômenos como a “fofoca literária” como motor de engajamento emocional e a inesperada redescoberta de clássicos da literatura, como Machado de Assis e Dostoiévski, por novas audiências digitais.

Destaques da Pesquisa

  • O TikTok como hub de curadoria literária: A plataforma se consolidou como um destino central de descoberta, onde o algoritmo atua como um curador dinâmico de novos repertórios e gêneros para o leitor brasileiro.
  • Novas vozes na validação de obras: O sucesso comercial de um título agora é impulsionado por comunidades de nicho e criadores que priorizam a autenticidade e a conexão real.
  • Impacto no varejo e logística: Da estratégia de estoque das editoras ao planejamento das vitrines, as tendências digitais estão redesenhando a experiência de compra e a organização das prateleiras nas livrarias físicas.
  • Representatividade e diversidade como motor: O papel central de narrativas LGBTQIA+, temas de saúde mental e protagonismos variados no engajamento do público, equilibrando a expansão de catálogo com a lógica de viralização.

Para entender mais sobre esse assunto, acesse o material completo.

Citar

RAMOS, P. H.; PORTAS, I. A.; RIBEIRO, N.; DE SOUZA, S. M. BookTok Brasil e as novas experiências literárias. São Paulo: Reglab, 2026
Ramos, P. H., Portas, I. A., Ribeiro, N., & de Souza, S. M. (2026). BookTok Brasil e as novas experiências literárias. Reglab.
Ramos, Pedro Henrique, Isabela Afonso Portas, Natália Ribeiro, e Stephanie Mathias de Souza. 2026. BookTok Brasil e as novas experiências literárias. São Paulo: Reglab

Autores

  • Pedro Henrique Ramos
  • Isabela Portas
  • Natália Ribeiro
  • Stephanie Mathias

Tags

BookTok Brasil e as novas experiências literárias

TikTok | reglab | centro de estratégia & regulação

Sobre o Reglab

Somos um centro de pesquisa privado especializado no setor de mídia e tecnologia, que auxilia empresas, associações e formuladores de políticas a tomarem decisões estratégicas baseadas em dados e evidências.

Saiba mais em www.reglab.com.br

Expediente

  • Diretor Executivo: Pedro Henrique Ramos
  • Diretora de Pesquisa: Marina Garrote
  • Autores: Pedro Henrique Ramos, Isabela Afonso Portas, Natália Ribeiro e Stephanie Mathias de Souza
  • Pesquisadoras: Isabela Afonso Portas, Natália Ribeiro e Stephanie Mathias de Souza
  • Diagramação Final: Larissa Camargo

Citação Sugerida: RAMOS, P. H.; PORTAS, I. A.; RIBEIRO, N.; DE SOUZA, S. M. BookTok Brasil e as novas experiências literárias. São Paulo: Reglab, 2026.

Sumário Executivo

Este estudo investiga o BookTok e como essa comunidade de leitura no TikTok está transformando práticas leitoras, dinâmicas de descoberta literária e o mercado editorial no Brasil.

A pesquisa combina síntese de literatura acadêmica e observação participante em livrarias físicas, analisando como a mediação digital da leitura se articula com experiências offline, práticas de consumo narrativo.

A análise mostra que o BookTok opera como uma infraestrutura informal de descoberta, recomendação e validação social da leitura, especialmente entre jovens, ao inserir os livros em ecossistemas digitais orientados ao entretenimento.

Principais achados

  • Descoberta literária incidental e entretenimento: No BookTok, o contato com livros ocorre de forma não planejada, em meio ao consumo de conteúdos de entretenimento. A leitura aparece associada a emoções, identificação, sociabilidade e representatividade, alcançando leitores e não leitores fora dos circuitos tradicionais e estimulando a experimentação de novos gêneros, autores, temas e obras.
  • Recomendação entre pares e legitimação da leitura: Criadores e criadoras de conteúdo se consolidam como referências na indicação de livros a partir da percepção de autenticidade e proximidade com o público. A legitimação das obras passa a ocorrer por múltiplas formas de mediação, incluindo experiência pessoal compartilhada e diferentes estilos de crítica, em um ecossistema diverso que reúne tanto leitores quanto criadores com formação especializada, escritores e críticos atuando na plataforma, dinâmica que já é reconhecida e incorporada pelo mercado editorial.
  • Expansão do impacto para além da ficção: Embora frequentemente associado à popularização de romances e gêneros de entretenimento, o BookTok também impulsiona a circulação de obras de não ficção, incluindo títulos de filosofia e ensaios contemporâneos.
  • Impactos no mercado editorial e nas livrarias: O BookTok influencia vendas, resgata títulos antigos e afeta a organização do espaço físico das livrarias, onde obras associadas à plataforma ganham destaque em mesas, sinalizações e edições especiais. Esse impacto, contudo, não é homogêneo, varia conforme o perfil da livraria, a curadoria e o território.
  • Ampliação do repertório e seus limites: a dinâmica comunitária do BookTok incentiva a saída da “zona de conforto” e o contato com novos repertórios literários. Ao mesmo tempo, a lógica de trends e viralização pode concentrar a atenção em determinados gêneros e títulos, revelando tensões entre diversidade cultural e homogeneização.
  • Recomendações valorizam representatividade e vozes diversas: O BookTok impulsiona obras diversas, especialmente com narrativas LGBTQIA+, protagonismos variados e temas ligados à identidade e saúde mental, estimulando a identificação dos leitores.

Introdução

O mercado editorial brasileiro cresceu nos últimos três anos, impulsionado por eventos como a Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, que em 2023 atraiu 600 mil pessoas e vendeu 5,5 milhões de obras. O avanço de 7,8% nas vendas de livros entre 2024 e 2025 reflete a influência das redes sociais, como o TikTok, no consumo de cultura.

O BookTok e outras comunidades de leitura online têm o poder de transformar livros antigos em sucessos atuais, colocando títulos clássicos de volta às listas de mais vendidos, como aconteceu com a obra machadiana Memórias Póstumas de Brás Cubas. Essa dinâmica digital já é percebida no mundo físico, com a aparição de estandes e selos de “sensação no TikTok” em livrarias e feiras.

Nossa pesquisa investiga de que modo o BookTok se manifesta nas práticas de leitura e de consumo e como essas dinâmicas se conectam ao mercado editorial no Brasil, especialmente no contexto offline. Por meio de observação em livrarias e análise de dados, buscamos entender como essa mediação digital impacta o mercado editorial offline.

Fontes: 1 Com mais de 600 mil visitantes, Bienal do Livro 2023 teve 5,5 milhões de livros vendidos (G1, 2023); 2 Varejo de livros registra mais um resultado positivo na expectativa para o fim do ano (PublishNews, 2025); 3 “Tá, tá movimentando”: a indústria editorial e o TikTok no Brasil. Comunicação Mídia e Consumo (Depexe, Freitas, 2023); 4 O TikTok e a formação de novos leitores no Brasil: o impacto dos booktokers no mercado editorial (Barbosa, 2024); 5 A influência do TikTok no mercado editorial: uma análise do BookTok (Führ, Rauber, Barth, 2023); O papel das mídias sociais no ato de incentivar o jovem a ler e o impacto do gênero literário romance (Fernandes, 2024)

Dados sobre a amostra

O que é o BookTok?

O BookTok é uma comunidade sobre livros dentro do TikTok. Ela se organiza a partir da hashtag #BookTok, onde as pessoas compartilham vídeos dinâmicos sobre livros, leitura e suas experiências literárias. É um espaço digital onde os usuários recomendam livros, compartilham suas emoções sobre as leituras e interagem uns com os outros, criando novas formas de falar sobre literatura.

Em 2025, vídeos com a hashtag #BookTokBrasil ultrapassaram 3 bilhões de visualizações no Brasil. De forma mais ampla, conteúdos sobre livros na plataforma superaram 12 bilhões de visualizações no país no mesmo período.

No BookTok, criadores e criadoras de conteúdo funcionam como influenciadores de leitura, contando histórias pessoais, falando sobre suas emoções e criando conexão com o público. Isso ajuda a tornar certos livros, autores e gêneros mais conhecidos e populares. Essas mudanças afetam tanto o que as pessoas leem e compram quanto as estratégias das editoras e livrarias.

6. De acordo com dados internos fornecidos pelo TikTok.

Metodologia: experiências de observação participante e síntese do conhecimento

Investigamos como o BookTok aparece nas práticas de leitura e compra de livros e como isso se conecta ao mercado editorial no mundo offline. Para isso, adotamos uma abordagem qualitativa que junta síntese do conhecimento e observação participante.

Síntese do conhecimento (revisão sistemática de literatura): Essa etapa indicou que há uma produção acadêmica consolidada sobre o BookTok no Brasil, com estudos que exploram métodos como netnografia, entrevistas com criadores de conteúdo (BookTokers) e leitores, e análises discursivas da plataforma. Analisamos esse conjunto, integrando achados e padrões recorrentes, o que orientou a estruturação dos principais eixos temáticos do relatório.

Pesquisa de campo (observação participante): para ir além do ambiente digital e em busca de entender mais a fundo a dimensão offline da pergunta de pesquisa, conduzimos uma etapa de observação participante em livrarias físicas. As visitas permitiram observar, in loco, práticas de consumo, curadoria, circulação de títulos associados ao BookTok e interações entre leitores, vendedores e o espaço físico.

Bookredes: uma nova cultura de leitura

Apesar de a pesquisa estar focada no BookTok, reconhecemos que a influência das redes sociais na recomendação e divulgação de livros não se restringe ao TikTok. O BookTok se insere em um contexto mais amplo denominado “bookredes” comunidades virtuais de leitores que, desde antes de 2020, têm utilizado diferentes plataformas digitais para compartilhar experiências de leitura e recomendar obras. Alguns exemplos são o BookTube (no YouTube) e o Bookstagram (no Instagram).

A pesquisa de campo: observação participante

As ciências sociais destacam que a observação participante é especialmente relevante para apreender a “imponderabilidade da vida real”, isto é, aspectos sutis, implícitos e contextuais do comportamento social, perceptíveis no contato direto com o campo. A observação permite acessar rotinas, interações, usos do espaço e comportamentos cotidianos tal como eles ocorrem, e não apenas como são posteriormente narrados ou racionalizados pelos sujeitos.

Para esta pesquisa, consideramos que a observação participante foi mais apropriada que outros métodos qualitativos. A pergunta de pesquisa exigia compreender práticas e dinâmicas que se manifestam na materialidade do cotidiano: na interação entre pessoas, espaços e referências simbólicas. Diferentemente de entrevistas ou questionários, a observação permite examinar o que as pessoas efetivamente fazem, como se comportam e como interagem em situações concretas.

Por se tratar de método intensivo em presença e interpretação, explicitamos quem são as autoras e como seus repertórios atravessam o olhar analítico. A pesquisa foi conduzida por Natália Ribeiro e Stephanie Mathias de Souza, pesquisadoras do Reglab, em livrarias de São Paulo. Ambas possuíam familiaridade com o BookTok, construída na revisão de literatura e no acompanhamento de debates sobre cultura digital. Essa proximidade foi tratada como vantagem empírica (facilita reconhecer sinais e dinâmicas do fenômeno) e ponto de atenção metodológico, exigindo reflexividade sobre expectativas e vieses.

Para garantir rigor, adotamos instrumentos padronizados: um Guia de Observação para orientar as pesquisadoras durante atividades de campo e um Modelo de Nota. Esses instrumentos funcionaram como “mapa” comum, sem reduzir a observação a preenchimento mecânico. A etapa de campo reconheceu que a produção de notas envolve uma dimensão sensível: cada visita é influenciada por variações de fluxo, clima de loja, disponibilidade de funcionários e pela presença das pesquisadoras, afetando o que se torna visível e interpretável no momento.

Fontes: 7 Comunidades Virtuais de Leitores: o Impacto das Bookredes no Consumo e na Difusão da Literatura (Valença, 2023) | 8 MARQUES, J. P. A “observação participante” na pesquisa de campo em Educação; JACKSON, L., GLOWACKI, M. Watching People: Observations. In: VAN DEN BULCK, H. et al. The Palgrave Handbook of Methods for Media Policy Research. Cham: Palgrave Macmillan, 2019

Ste: A observação participante capturou o efeito “BookTok no offline”, registrando não só o exposto, mas como isso é vivido em tempo real: evidenciou, por exemplo, diferenças entre livrarias comerciais e tradicionais, o ritmo de navegação do público e o papel da mediação dos funcionários. O mais interessante é que mostrou também sinais indiretos da influência do TikTok, o que eu acredito que seria difícil de perceber apenas com dados digitais, pois depende do contexto, fluxo da loja, layout e interação no momento.

Ste é bacharel em Design e estudante de Direito. Seu livro preferido de 2025 foi “Pachinko”, de Lee Min Jin. Neste projeto, acompanhou a Nat nas visitas às livrarias, o que configurou sua primeira experiência de observação participante em pesquisas.

Nat: A observação participante foi essencial para responder à pergunta de pesquisa, permitindo observar a manifestação do BookTok no contexto offline. A presença em livrarias nos permitiu identificar referências ao TikTok explícitas e implícitas na organização das mesas e destaque de títulos. Conversas informais com clientes e funcionários ajudaram a captar percepções espontâneas sobre o fenômeno e seu grau de familiaridade. Em um cenário de uso crescente de IA na pesquisa, essa abordagem reforça o valor de métodos qualitativos sensíveis à experiência humana e ao contexto.

Nat é formada em Direito. Seu gênero literário favorito é ficção, e em 2025 seu livro preferido foi “A Natureza da Mordida”, de Carla Madeira. Foi a principal pesquisadora de campo deste projeto, com suporte da Ste e de toda equipe do Reglab.

O universo pesquisado

Para facilitar a leitura e a compreensão das informações apresentadas neste estudo, adotamos um sistema de destaques por cores:

  • A barra vertical rosa na lateral dos parágrafos indicam que os achados são provenientes da revisão sistemática de literatura, que sintetizou o conhecimento acadêmico pré-existente sobre o BookTok.
  • Já os textos com a barra azul na lateral correspondem a dados coletados por meio da observação participante realizada nas livrarias físicas de São Paulo.

Resultados

1. Como funciona o BookTok: comunidade de leitura digital

Como o BookTok fala sobre livros?

Os posts do BookTok usam muito uma comunicação baseada na emoção e na experiência pessoal. As recomendações vêm do que o leitor sentiu, como mostra a hashtag #BookTokMadeMeCry (“O BookTok me fez chorar”). Nesse ambiente, o sentimento é muitas vezes mais valorizado do que uma análise crítica tradicional.

Os BookTokers (criadores de conteúdo na comunidade) preferem compartilhar suas opiniões e histórias pessoais, o que ajuda a tornar o hábito da leitura mais “humanizado” e próximo das pessoas”. Esse estilo é chamado de “narrativa emocional”: são vídeos dinâmicos e sinceros, focados na vivência de quem leu, e não necessariamente em uma avaliação técnica do livro.

Mostrar emoções, encenar reações e fazer comentários apaixonados funciona como um convite à leitura, o que aumenta a participação e a identificação do público. BookTokers criam esses conteúdos com áudios famosos, modelos visuais prontos e músicas que viralizam na plataforma. Os vídeos misturam atuações e efeitos especiais com uma linguagem rápida e divertida. A união de vídeos mais curtos, espontaneidade e gestos cria um novo comportamento de leitura, baseado em descobertas rápidas e recomendações visuais.

A descoberta literária no BookTok

O BookTok é um espaço digital no qual leitores descobrem novos livros de maneira dinâmica e envolvente. Essa descoberta acontece por meio de:

  • emoções prometidas: os vídeos antecipam os sentimentos que o livro pode despertar (como “esse livro me fez chorar”);
  • pistas visuais, especialmente as capas dos livros, que se tornam elementos de reconhecimento imediato das obras; e
  • identificação com outros leitores, ao ver alguém com gostos semelhantes recomendar uma obra, usuários do TikTok tendem a querer ler também.

Dentro dessa comunidade, formatos específicos de conteúdo organizam as recomendações literárias, trabalhando juntos para capturar a atenção do público e despertar o desejo de ler:

  • listas temáticas (como “5 livros de fantasia que você precisa ler”);
  • resenhas curtas e autênticas; e
  • a “fofoca literária”(conhecida como storytime no BookTok internacional), uma estratégia na qual BookTokers comentam sobre a trama de forma intrigante, despertando curiosidade.

Essa nova forma de comunicação é poderosa: quase metade da geração Z prefere usar o TikTok ou o Instagram para pesquisas e recomendações em vez de usar os buscadores tradicionais.

  • O BookTok cria “comunidades de escolha”, baseadas em afinidades e identificação, para criar esse espaço online de recomendação literária.
  • A personalização de conteúdos amplia a descoberta de gêneros e autores, incentivando leitores a sair da “zona de conforto” e a retomar o hábito de leitura.
  • O feed “Para Você” (For You) do TikTok recomenda conteúdos personalizados de acordo com os gostos de cada usuário. Esse mecanismo reconhece os interesses do leitor, favorece a visibilidade de livros e influencia o que é descoberto.
  • Estratégias de comunicação como a “fofoca literária” fazem com que o processo de leitura comece antes mesmo do acesso ao livro, ao despertar curiosidade sobre a história e seus desfechos.

Nas livrarias, percebemos como isso muda o dia a dia de clientes e funcionários:

  • Ajuda nas vendas: Um vendedor com quem conversamos usa o TikTok para conhecer melhor as histórias e dar indicações certeiras aos clientes. No mesmo local, vimos jovens comprando livros que viram na rede social para presentear amigos ou para uso próprio.
  • Além do romance: Foi possível observar que a influência das Bookredes também alcança as obras de não ficção, incluindo título de filosofia e ensaio contemporâneo. Entre os exemplos citados por vendedores estão Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, e Coisa de Rico: a vida dos endinheirados brasileiros, de Michel Alcoforado, um ensaio antropológico sobre estilos de vida e distinção social no Brasil.
  • Sucessos inesperados: Na Livraria Travessa (Pinheiros), o livro “Caderno Proibido”, de Alba de Céspedes, virou um sucesso de vendas devido às redes sociais, mesmo não sendo romance e fantasia. Já no Shopping Morumbi, obras de Freida McFadden, autora de best-sellers de suspense e comédia romântica, foram destacados como grandes sucessos do TikTok.
  • Marca registrada: No sistema interno de uma das livrarias visitadas, o nome da plataforma aparece até no cadastro interno dos livros, como no título “Gild – Fantasia Sensação no TikTok 1: livro 1 da série a prisioneira dourada”.

Criadores e criadoras de conteúdo se consolidam como referências em um ecossistema plural de recomendação literária

BookTokers ajudam a mudar a forma como livros são recomendados e reconhecidos na internet. Eles se tornaram referências importantes na hora de indicar o que ler, e criadores e criadoras de conteúdo compartilham suas experiências de leitura de forma pessoal, criando uma relação de proximidade e confiança com quem os acompanha.

Esse fenômeno não se limita à atuação de leitores “amadores” ou à circulação de opiniões exclusivamente subjetivas. O Booktok abriga uma diversidade de perfis e estilos discursivos, incluindo criadores com formação especializada, escritores e críticos que também publicam conteúdo na plataforma.

A presença de autores e profissionais do campo literário no TikTok, como o escritor e roteirista Raphael Montes, que utiliza a plataforma para comentar obras e dialogar com leitores, ou o BookToker Tiago Valente, que possui formação em Letras, ilustra como essas fronteiras se tornam mais “porosas”. O que surge é uma nova configuração da crítica cultural, em que credenciais formais coexistem com formas de legitimação baseadas na experiência, na linguagem acessível e na capacidade de engajamento. E o mercado editorial já reconhece essa influência: editoras convidam BookTokers para feiras literárias, enviam livros para que sejam divulgados e, em alguns casos, até incentivam que eles comecem a escrever seus próprios livros.

Pesquisa do Instituto Pró-Livro na Bienal de São Paulo (2022) mostrou que 52% dos visitantes foram motivados a ler um livro pela opinião de influenciadores digitais nos últimos 3 meses.

Ainda assim, a credibilidade nesses espaços continua associada à percepção de autenticidade e identificação. Como aponta Mattos (2025) em sua pesquisa, a partir de entrevistas com criadores e criadoras de conteúdo do BookTok, quando esses perfis crescem e priorizam demais as indicações pagas, correm o risco de parecerem “comerciais demais”, comprometendo a confiança conquistada com seu público.

Nas visitas às livrarias, vendedores reconhecem BookTokers específicos como referências na recomendação de livros. Em uma das livrarias visitadas, a vendedora entrevistada citou BookTokers como Paulo Ratz, Ana Ju e Liv Resenhas, além de comentar sobre Paola Aleksandra, que lê lançamentos e posta resenhas rapidamente, instigando a procura dos leitores. Ela relatou, ainda, que compradores comentam entre si que “viram fulano falando que o livro era muito bom”, mostrando como as recomendações circulam entre criadores e leitores e ganham força quando compartilhadas socialmente.

Em outra visita, o vendedor com quem conversamos relatou consumir conteúdo de BookTokers por motivos profissionais, usando os vídeos para conhecer resumos dos livros que chegam à loja, já que não há tempo para ler todos. Essas informações são depois incorporadas em seus argumentos de venda aos clientes.

No BookTok, leitura também é performance

O BookTok transforma o ato de ler, que costuma ser solitário, em uma atividade coletiva e interativa, na qual os leitores e leitoras sentem fazer parte de uma comunidade. A plataforma funciona como um clube do livro online com milhões de membros ativos, onde leitores não leem sozinhos, mas como parte de comunidades leitoras.

Essa transformação acontece porque os membros buscam o diálogo instantâneo e a validação comunitária, que passam a influenciar as decisões de consumo. O BookTok transforma a descoberta de livros em uma experiência emocional e compartilhada, tratando a leitura como um hábito social e afetivo.

Os vídeos funcionam como histórias que humanizam o consumo literário, enquanto o público interage curtindo, comentando e criando seus próprios conteúdos.

Nas livrarias, esse comportamento se repete: é comum ver clientes conversando sobre os títulos e até debatendo sobre as obras que ficaram famosas no TikTok. Em uma das visitas, em livraria de shopping, percebemos um grupo de jovens comentando sobre livros em conjunto, trocando impressões sobre capas, enredos e títulos que já haviam visto na plataforma: “esse aqui parece que eles se odeiam”, “essa capa aqui é muito linda, eu queria”, enquanto apontavam livros expostos na mesa da entrada da livraria, umas às outras. Vale notar que a maioria dos títulos expostos nessa mesa eram reconhecidos por terem circulado no TikTok.

Essas interações mostram que a leitura, impulsionada pelo BookTok, extrapola a experiência individual e se consolida como prática social compartilhada, que se estende do ambiente digital ao espaço físico das livrarias.

Assim, a leitura também assume um caráter performativo, deixa de ser somente um passatempo ou busca por conhecimento e passa a funcionar como um estilo de vida, estética e identidade social. Ser “leitor” torna-se uma posição visível, percebida por meio de hábitos, objetos, e pertencimento comunitário. Nesse cenário, os livros, as estantes arrumadas, as capas bonitas e até as reações emocionadas servem como sinais para demonstrar essa identidade. Por outro lado, parte da literatura crítica aponta que a centralidade da performance pode fazer com que “parecer leitor” ganhe mais importância do que o próprio ato de ler.

Fontes das seções acima: 9 a 31 – Santos (2025), Neto (2025), Führ, Rauber, Barth (2023), Fernandes (2024), Alexandre (2023), Nascimento (2023), Karhawi; Iossi; Fernandes (2024), Valença (2023), França; Rodrigues (2023), Mattos (2025), Sousa (2024), França (2024), Freitas (2023), Cruz (2025), Pierce (2023).

2. Influência do BookTok nas práticas de leitura

Mais próxima e social, a leitura ganha popularidade

A comunidade de leitura no TikTok funciona como espaço de pertencimento, troca e sociabilidade literária, estimulando leitores (em geral, jovens) a retomarem e fortalecerem o hábito de ler. Os BookTokers tornam a leitura mais próxima pela linguagem que utilizam, apoiados por uma edição simples e uma linguagem informal, o que contribui para a percepção de proximidade e espontaneidade com o público.

Esse estímulo se intensificou durante a pandemia de COVID-19, quando o isolamento social levou jovens a buscarem novas formas de consumo cultural nas redes sociais. A comunidade se tornou um espaço de acolhimento, troca e pertencimento, reforçando redes de afinidade e estimulando o hábito de leitura.

No BookTok, pessoas compartilham livros e autores favoritos, transformando a leitura em experiência coletiva, e esse aspecto comunitário é um dos principais fatores que parecem influenciar o consumo de livros.

Na experiência de observação participante, uma vendedora relatou ter abandonado a leitura por um período prolongado e retomado o hábito após contato com recomendações literárias nas redes sociais, reorganizando sua rotina para incluir momentos diários de leitura. O relato evidencia as Bookredes como mediadores da reaproximação com a leitura, tornando-a mais acessível, integrada ao cotidiano e conectada a experiências compartilhadas.

Emoção e identificação guiam a leitura

No BookTok, a leitura deixa de ser vista como uma imposição institucional, como obrigações escolares ou universitárias, e passa a ser considerada algo divertido, baseada na informalidade, identificação e emoção.

As dicas de livros circulam de acordo com o que emociona, criando uma ligação mais horizontal e afetiva entre os leitores. Essa experiência contribui para tornar a leitura mais próxima do cotidiano e pode estimular a ampliação do repertório literário. A descoberta de livros é marcada por achados rápidos, recomendações visuais e apelo emocional.

Muitos vídeos servem para fazer amizades, usando a recomendação do livro como uma forma de expressar sentimentos despertados pela leitura e de convidar outros leitores a vivenciar emoções semelhantes.

A “fofoca literária” também é um sucesso: gera curiosidade e expectativa sobre a história, desperta a vontade de ler e antecipa a experiência leitora por meio da emoção.

A descoberta de novos gêneros e autores amplia repertórios

A dinâmica comunitária no BookTok permite novas descobertas literárias. Criadores e criadoras de conteúdo utilizam ganchos emocionais, e formatos acessíveis para “furar a bolha” e atrair até mesmo não-leitores que navegam pela página “Para você” (For you), ampliando o alcance das recomendações.

Leitores relatam sair da “zona de conforto”, descobrindo livros que não leriam normalmente, além de novos gêneros e autores.

O BookTok também favorece a participação em discussões literárias. Hashtags temáticas funcionam como pontos de encontro para o compartilhamento de interpretações, estimulando autonomia leitora e envolvimento ativo na construção de sentidos sobre os livros. Por exemplo, a hashtag #CapitutraiuounãooBentinho, relacionada à trama de Dom Casmurro, repercutiu no TikTok e é vista como um espaço comunitário para discussões, interpretações e perspectivas diferentes sobre a história.

Também foi possível perceber a diversidade de repertórios no ambiente offline. No campo, o vendedor com quem conversamos relatou aumento na procura por livros mais densos e menos comerciais, frequentemente associados a descobertas feitas por meio de criadores e criadoras de conteúdo. Títulos fora do circuito de gêneros como romance ou fantasia, como o “Caderno Proibido”, de Alba de Céspedes, passaram a circular com maior frequência no caixa, indicando a ampliação dos repertórios a partir das redes sociais.

A bibliografia também aborda a ideia de que a formação de leitores e espectadores críticos é prejudicada pela persistência de desigualdades socioeconômicas, chamando a atenção para discrepância nas possibilidades de acesso.

Na pesquisa de campo essa percepção também esteve presente: uma cliente, ao ser questionada sobre suas percepções do BookTok, se mostrou crítica ao questionar um desejo de “reviver a leitura” já voltado para o consumo, que impulsiona a escrita de tramas a partir do seu potencial de vendas, e ao argumentar que pode ser criada uma visão elitista da leitura.

Porém, de modo geral, a bibliografia aborda o BookTok de forma otimista ao enfatizar que ele estimula o hábito de leitura, forma comunidades e impacta positivamente o mercado editorial. Embora a literatura tenha se democratizado, a difusão de títulos nas redes sociais não garante igualdade de acesso, pois muitos livros divulgados não estão em bibliotecas públicas, permanecendo restritos à compra com preços pouco acessíveis, reforçando desigualdades.

BookTok para além do texto: bem de consumo, estética e identidade

A dinâmica do BookTok, assim como do Bookredes, vai além da promoção da leitura em si. Estudos acadêmicos analisam como essa comunidade molda a percepção social do comportamento leitor ao vinculá-lo à visibilidade, ao consumo de narrativas midiáticas e pertencimento cultural.

O BookTok pode ser entendido como uma manifestação do que Canclini, antropólogo latino-americano contemporâneo, considera como consumo cultural: a apropriação e uso de produtos principalmente pelo seu valor simbólico.

Assim, entendendo o consumo de vídeos no TikTok como uma manifestação do consumo midiático, que é, por sua vez, uma vertente do consumo cultural, percebe-se que, no BookTok, o consumo do livro vai além da leitura; o ato de ler é transformado em imagem e estética; torna-se uma questão simbólica de identidade e pertencimento à comunidade.

Nas livrarias visitadas, percebemos a valorização material e estética do livro. Destacavam-se capas duras, edições especiais e versões de colecionador, com acabamentos elaborados e elementos visuais chamativos. Diversos desses títulos eram reconhecidos como sucessos do TikTok ou associados a obras que circulam nas Bookredes.

Consumo de Narrativas

O consumo do BookTok se relaciona com o conceito de “consumo narrativo” do crítico japonês Eiji Ōtsuka. Ao estudar chocolates Bikkuriman (parecidos com os “Surpresa” da Nestlé no Brasil), Ōtsuka percebeu que crianças japonesas guardavam as figurinhas e jogavam fora os chocolates – ou seja, o que elas realmente queriam consumir era o mundo de histórias por trás do produto.

Segundo Ōtsuka, o consumo narrativo funciona em dois níveis ao mesmo tempo: a “grande narrativa” (o universo de significados que dá contexto ao consumo) e a “pequena narrativa” (a história pessoal que cada consumidor cria a partir desse universo).

No BookTok, a grande narrativa é a própria comunidade — com seus criadores de conteúdo, emoções compartilhadas e códigos culturais. A pequena narrativa é o livro individual e a experiência única de leitura de cada pessoa, que é influenciada pelas percepções coletivas da comunidade.

Recomendações valorizam representatividade e vozes diversas

A bibliografia analisada frequentemente aborda o BookTok por seu papel na democratização do debate literário. A comunidade é considerada um espaço aberto, inclusivo e interativo de conversas sobre livros, que valoriza vozes diversas e promove discussões sobre representatividade, diversidade e saúde mental. Isso porque percebe-se que muitos BookTokers procuram indicar autores nacionais, livros com diversidade e valorizam a literatura jovem, além de temas relacionados à representatividade.

Tema de Representatividade em livros mencionados no BookTok %
Não citado ou nenhuma 36,0%
Outros temas 19,0%
Representatividade Negra 16,0%
Representatividade PCD 11,0%
Representatividade LGBTQIA+ 18,0%

Um exemplo é o estudo sobre a indústria editorial e o BookTok no Brasil que identifica “recomendações de livros LGBTQIA+” como uma das práticas recorrentes observadas no BookTok. No campo, uma cliente de uma das livrarias visitadas mencionou comprar o título Vermelho, Branco e Sangue Azul, um romance LGBTQIA+, por influência do TikTok. Os títulos observados nas visitas em livrarias frequentemente incluíam temas com representatividade, confirmando essa influência nos hábitos de consumo offline.

Há críticas à homogeneização e centralidade de alguns gêneros

A revisão bibliográfica alerta para o risco de homogeneização devido à lógica de “trends” e “viralização”, que possuem um papel estruturante na circulação dos livros e conteúdos do BookTok: para ampliar o alcance e acelerar as tendências, tende-se a padronizar formatos e, potencialmente, repertórios.

No campo, porém, essa homogeneização parece ser relativa. Percebemos que a influência do BookTok varia conforme perfil da livraria, curadoria e território, como será discutido no capítulo ‘O “efeito BookTok” não é uniforme’. O BookTok não se distribui igualmente: ele é filtrado por lógicas de consumo e de legitimidade já existentes em cada livraria.

  • Em uma livraria independente com curadoria politizada, como a Megafauna, a presença de títulos “da moda” é menor e o TikTok aparece como secundário frente a outras formas de influência.
  • Na Martins Fontes, o público predominante e a curadoria ampla relativizam a centralidade do fenômeno.
  • Na Travessa, livraria de rua, foi possível perceber que: redes sociais podem pautar também livros menos óbvios, indicando que “homogeneização” também depende de mediações locais, como curadoria, vendedor, bairro e público.

Fontes das seções acima: 32 a 54 – Cruz (2025), Santos (2025), Valença (2023), Depexe; Freitas (2023), Cazarré (2023), Alexandre (2023), França (2023), Barbosa (2024), Duda (2024), Magalhães; Santos (2025), Toaldo; Jacks (2013), ŌTSUKA; STEINBERG (2010), Macedo (2024), Morais (2025).

3. Público e gêneros predominantes no BookTok

O BookTok é predominantemente feminino e jovem

Idade: O BookTok é formado principalmente por adolescentes e jovens adultos, com núcleo principal entre 15-25 anos e ampliação geracional até 45+. Esse perfil se insere em uma base mais ampla da própria plataforma, considerando que a média de idade dos usuários do TikTok no Brasil é superior a 30 anos.

O campo reforça esse achado: Vendedores afirmaram ver “principalmente meninas mais novas” procurando livros do BookTok, citando jovens buscando títulos de autoras como Colleen Hoover. Quase todas as interações com clientes registradas nas livrarias envolveram meninas ou mulheres jovens. Um padrão recorrente nas livrarias foram mães com filhas adolescentes e grupos de meninas explorando seções de ficção/romance.

Identidade: há uma presença significativa de leitores LGBTQIA+ e busca por representatividade. “Novas gerações buscam identificação com personagens e narrativas, ampliando títulos com representatividade LGBTQIA+”.

+70% DE BOOKTOKERS SÃO MULHERES.

Romance, ficção e young adult se adaptam bem às tendências

A pesquisa de campo reflete o que a literatura já aponta: há uma preferência do público por títulos de ficção, como fantasia e suspense, e obras do gênero Young Adult (YA). Funcionários mencionaram, repetidamente, a busca por romance, ficção, suspense policial e aventura.

Gêneros dos livros mencionados em vídeos do BookTok analisados no estudo de Chagas (2024) %
Romance 29,4%
Mistério 29,4%
Fantasia 26,5%
Outros (Ficção 8,8%, Terror 5,9%) 14,7%

Alguns nomes e títulos repetidamente observados nas visitas às livrarias foram: É Assim que Acaba, de Colleen Hoover; Verity, de Colleen Hoover; e A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig.

O BookTok promove a redescoberta comercial de títulos antigos…

O BookTok exerce uma influência para além dos títulos tendência: também resgata livros antigos, devolvendo-os às listas de mais vendidos anos após a publicação original. Nesse sentido, alguns exemplos de títulos mencionados na revisão bibliográfica, incluem:

  • Mentirosos: o BookTok promove vendas de livros já lançados e impulsiona obras antigas a retornarem ao topo das listas, como ocorre com Mentirosos, cujo crescimento rápido de vendas decorre da hashtag associada à obra.
  • Stone Maidens: Stone Maidens, romance policial de 2012 que não chegou a configurar best-seller e que, após vídeos da filha do autor no TikTok, alcançou o top 10 de mais vendidos da Amazon, relacionado ao #BookTok.

O BookTok também ressuscita livros antigos, como A Canção de Aquiles, e fez editoras e livrarias adotarem displays e sinalizações de obras populares.

…assim como a revitalização de livros clássicos

Autores como Dostoiévski, Machado de Assis e Clarice Lispector aparecem nas conversas com funcionários das livrarias como nomes que voltaram a ganhar destaque após recomendações no BookTok. Em campo, um vendedor mencionou o aumento da procura por Noites Brancas, de Dostoiévski, destacando que, apesar de ser um livro antigo, voltou a figurar entre os mais vendidos após circular na plataforma.

Autores brasileiros ganham destaque, inclusive internacional: Machado de Assis, por exemplo, viralizou no TikTok em decorrência do elogio de uma criadora de conteúdo americana.

  • Dom Casmurro tem atraído um novo público através do BookTok. A hashtag #CapitutraiuounãooBentinho é um ponto de encontro comunitário que desencadeia discussões vibrantes.
  • A rede tem o poder de resgatar obras mais antigas ou clássicas, como ocorreu com o aumento da procura por Memórias Póstumas de Brás Cubas após um vídeo viral, demonstrando a importância da viralização dos conteúdos para as vendas.

4. BookTok e o mercado editorial no Brasil

O BookTok impacta desde o mercado editorial…

Múltiplos estudos da bibliografia documentam que o BookTok impulsiona as vendas de livros impressos, contrariando as expectativas de substituição do livro impresso pelo digital. Os impactos no mercado são amplos:

  • Segundo dados do Nielsen BookScan, entre janeiro e setembro de 2021 foram vendidos 36 milhões de livros, um aumento de 39% em relação ao mesmo período de 2020, e muitos dos grandes responsáveis por isso foram os adolescentes e jovens. Em 2025, os números já chegavam a 48 milhões.
  • Esse movimento não se restringe ao contexto brasileiro. O impacto do BookTok também se traduz em efeitos mensuráveis sobre o mercado editorial: na Europa, mais de 50 milhões de livros recomendados pela comunidade #BookTok foram vendidos em 2025, gerando cerca de €800 milhões em receita.
  • Na 26ª Bienal do Livro de São Paulo, em 2022, editoras como Seguinte e Companhia das Letras declararam que os livros mais vendidos no evento foram resultado de recomendações do TikTok.

No campo, percebemos clientes que chegam com prints salvos no celular procurando títulos específicos vistos no TikTok. Nas livrarias, os vendedores confirmaram essa influência: “quando chegam esses livros [do BookTok] nas livrarias, ficam entre os mais vendidos ou esgotados”, mencionou um dos vendedores com quem conversamos.

…até a organização do ambiente offline

Nas livrarias, o espaço é frequentemente organizado para destacar os títulos do BookTok, com seções “Sucesso do TikTok” e estandes temáticos nas lojas. Também há uma concentração desses livros em mesas de destaque nas entradas das livrarias, e o campo mostrou que a marcação explícita ao TikTok é dispensável: sua influência pode ser percebida em sinais e linguagens próprias, como a estética de capa, claims genéricos como “redes sociais” e o uso de plaquinhas personalizadas identificando séries específicas.

Na pesquisa de campo, uma vendedora comentou que a disposição dos livros na seção de romances está dividida em duas categorias: uma que ela chamou de “romances clássicos” e a outra, “romances do TikTok”.

Em outra livraria, um dos vendedores disse que percebe a influência do TikTok “principalmente pelos livros que passam no caixa”. Ele relatou que pergunta ativamente aos clientes onde descobriram o livro e as respostas frequentemente envolvem “influencers, amigos ou ‘na internet’”.

Do online para o offline, o BookTok funciona como “termômetro” que editoras usam para antecipar obras e autores que “vão explodir”, com “olheiros especializados” monitorando a plataforma.

As capas e edições especiais contribuem para o valor simbólico do livro

Uma das pesquisas da revisão de literatura descreve os unboxings como um formato de conteúdo no qual o livro vira a “peça central” não só pelo conteúdo, mas também pela estética — com títulos chamativos e encadernações bonitas — ressaltando o caráter econômico e simbólico do livro.

Outro estudo também explica que a influência em jovens leitores também pode ser percebida pela divulgação de edições especiais e novidades editoriais, junto de sugestões e críticas, conectando materialidade com desejo de compra e de pertencimento a comunidade.

No campo, a observação das capas de livros do BookTok revela a consolidação de uma estética reconhecível e marcada por escolhas visuais que dialogam diretamente com a lógica comunicacional da comunidade:

  • uso recorrente de cores saturadas ou contrastantes, que podem contribuir para a rápida identificação dos livros
  • tipografias expressivas com fontes manuscritas, ornamentais e estilos informais
  • títulos que nomeiam as obras ao mesmo tempo que comunicam um tom emocional
  • ilustrações estilizadas e emocionalmente orientadas
  • recorrência de símbolos afetivos, como flores, corações, chamas, coroas ou objetos centrais à trama, que contribuem para o reconhecimento imediato da capa

As escolhas visuais das capas indicam um processo de padronização estética, no qual determinadas convenções passam a sinalizar o pertencimento ao universo do BookTok. Reconhecer uma “capa de BookTok” torna-se parte de uma experiência compartilhada entre leitores, editoras e livrarias, reforçando a integração entre mercado editorial e a comunidade leitora na plataforma.

O “efeito BookTok” não é uniforme: nem todos são impactados da mesma maneira

O público é impactado de diferentes ângulos e o peso relativo desses mediadores varia por idade, perfil da livraria e território. O campo mostra que:

  • O vendedor aparece como um mediador que confirma tendências (“isso está saindo muito”); traduz pedidos incompletos (“vi num vídeo, capa X”) e reencaminha (sugere livros similares).
  • Em espaços de curadoria mais politizada e independente, a influência do BookTok é menor e mais indireta; em contextos comerciais, tende a ser mais visível e orientada à conversão rápida.

A curadoria específica de uma livraria independente, localizada no centro de São Paulo, influencia a forma como as pessoas interagem no ambiente: os livros que viralizam no TikTok quase não fazem parte do acervo. “É um ou outro livro do TikTok que tem na livraria”, foi o que ouvimos durante a observação em campo.

Em outra livraria, também situada no centro de São Paulo e com curadoria própria e catálogo mais restrito, ouvimos que, por se tratar de um espaço mais específico, a influência do TikTok não aparece de forma significativa. Percebemos que esse fato pode, em alguma medida, contribuir para a imagem e o caráter independente da loja.

Análise e Comentários

O BookTok estimula o consumo de livros físicos por meio de mediação digital, contrariando expectativas de substituição

Os achados indicam que, para os leitores, de modo geral, a mediação digital não substitui o livro físico, e até contribui para sua revalorização. Embora parte do debate sobre os nativos digitais tenha antecipado a migração do tempo de consumo cultural para o ambiente digital, o BookTok aponta para uma dinâmica distinta.

A circulação de recomendações, imagens e narrativas sobre livros nas redes sociais estimula o interesse pelo objeto impresso, que passa a ser consumido também por seu valor simbólico e estético. Edições especiais, capas elaboradas e versões de colecionador reforçam o livro como bem desejável, integrado à performance leitora e ao pertencimento comunitário. O meio digital opera como legitimação, enquanto o livro físico concentra valor material e cultural, sendo também revalorizado em sua dimensão sensorial, como a experiência tátil do manuseio, o ato de folhear e a percepção concreta do avanço na leitura, frequentemente explorada nos próprios conteúdos produzidos pelos criadores e criadoras que publicam sobre livros.

Ampliação e limites do repertório por meio do BookTok

A dinâmica comunitária do BookTok amplia as possibilidades de descoberta literária ao dialogar com as lógicas do TikTok como plataforma voltada à descoberta e ao entretenimento, permitindo que recomendações alcancem leitores e não leitores fora de seus circuitos habituais. Relatos indicam a saída da “zona de conforto” e a aproximação com novos gêneros, autores e obras, além da participação em discussões interpretativas coletivas, potencializadas pelas hashtags, que agrupam os conteúdos.

A bibliografia, no entanto, alerta para os riscos de homogeneização de repertórios associados à lógica de trends, viralização e ciclos curtos de relevância. Essa crítica aponta para limites do BookTok na promoção da leitura, porém os dados de campo relativizam essa tensão ao mostrar que a homogeneização não se distribui de forma uniforme, o que sugere que o BookTok opera como um dentre diversos vetores de ampliação do repertório, que atuam em diferentes intensidades para diferentes públicos e ambientes.

Território, curadoria e consumo são diferentes entre livrarias

A observação participante identificou diferenças na manifestação do BookTok entre livrarias de rua e de shopping. Nas de rua, especialmente no centro de São Paulo, com curadoria mais politizada, a influência do BookTok foi menos evidente, prevalecendo títulos de debates sociais, raciais e políticos. Nas livrarias de rede e shoppings – estruturados pela lógica de consumo – a influência foi mais clara, com maior concentração de títulos do BookTok, organização de mesas, selos e linguagem das redes sociais, além de público mais jovem e feminino.

Essa diferença sugere que o impacto do BookTok não depende apenas da plataforma, mas da articulação entre ambiente físico, lógica comercial, curadoria e perfil do público. Ele se manifesta com maior intensidade em espaços onde o consumo simbólico e visibilidade são mais centrais, enquanto parece encontrar maior resistência em livrarias que operam sob outros regimes culturais e editoriais.

Influência do consumo cultural e midiático

A recomendação de livros é, então, orientada por métricas de interação. A seleção dos títulos que ganham destaque está menos associada a juízos críticos sobre a obra e mais conectada a lógicas técnicas, econômicas e organizacionais que estruturam a circulação de conteúdos na plataforma.

Nesse contexto, a leitura passa a operar também como performance, deslocando-se parcialmente da experiência de interpretação dos livros para a exibição pública do ato de ler. Não é só sobre consumir livros, mas consumir e produzir sentidos sobre a leitura nesse ambiente digital, no qual visibilidade, engajamento e reconhecimento social tornam-se centrais. Assim, o livro funciona simultaneamente como objeto cultural e marcador simbólico de pertencimento.

O BookTok é um grande mundo narrativo – e sua história ainda está sendo escrita

A influência do Tiktok nos hábitos de leitura é tanto uma expressão específica do consumo midiático quanto do consumo narrativo. No BookTok, livros deixam de ser produtos culturais isolados e passam a integrar um ecossistema narrativo mais amplo, no qual o ato de ler se entrelaça com performances de leitura, rituais de compartilhamento e construção coletiva de sentidos.

A leitura opera também como performance, deslocando-se parcialmente da interpretação dos livros para a exibição pública do ato de ler. Nesse mundo narrativo do BookTok, o livro funciona simultaneamente como objeto cultural e marcador simbólico de pertencimento, inserido em uma dinâmica onde tendências e formatos recorrentes orientam a visibilidade de certos títulos, gêneros e autores.

O que torna o BookTok particularmente potente é sua capacidade de gerar histórias sobre histórias: cada vídeo não apenas recomenda um livro, mas conta uma narrativa sobre a experiência de lê-lo, criando camadas de significação que vão além da obra original. Os usuários não são apenas leitores, mas coautores de uma metanarrativa coletiva sobre o que significa ler, pertencer e compartilhar no ambiente digital.

Leitura em rede: BookTok, fandoms e adaptações audiovisuais

Para além da circulação de livros como objetos isolados, o BookTok insere a leitura em um ecossistema mais amplo de consumo cultural e midiático. As obras passam a circular articuladas a outras formas de entretenimento, como adaptações audiovisuais e a formação de fandoms, aproximando o universo literário de dinâmicas típicas da cultura digital atual. O BookTok parece atuar como um “termômetro cultural”, sinalizando tendências e contribuindo para a consolidação de títulos que mobilizam engajamento coletivo. Obras como Mentirosos e A Empregada ilustram esse movimento: após circularem na plataforma e estruturarem comunidades de leitores engajados, também ganharam adaptações para streaming e cinema, em um processo que envolve múltiplos fatores da indústria audiovisual, entre os quais o engajamento no ambiente digital pode desempenhar um papel.

O que diferencia o BookTok das outras Bookredes?

O BookTok está inserido em um ecossistema de Bookredes, mas apresenta características específicas que ajudam a explicar sua capacidade de influência.

  • O Booktok se destaca por sua autenticidade e espontaneidade: No TikTok, criadores e criadoras de conteúdo produzem vídeos dinâmicos e com aparência espontânea, o que cria uma experiência que os usuários percebem como mais casual, próxima e amigável. A plataforma também abriga conteúdos mais elaborados e criadores com diferentes níveis de especialização, e essa linguagem, de modo geral, favorece uma sensação de proximidade e identificação com o público, em contraste com o caráter mais estético e planejado que aparecem em outras Bookredes.
  • Diferentemente de outras plataformas, o TikTok favorece a viralização orgânica de conteúdos e prolonga sua relevância ao longo do tempo. Vídeos antigos continuam circulando e sendo redistribuídos, o que sustenta a circulação contínua de indicações literárias.
  • A recomendação de conteúdos no TikTok é eficiente para alcançar públicos fora da bolha tradicional de leitores, fazendo com que alguns títulos alcancem novos públicos.
  • Livros aparecem de forma casual em conteúdos de lifestyle, esporte, empreendedorismo, beleza ou entretenimento, em uma dinâmica semelhante ao “scroll learning”, na qual o contato com conteúdos ocorre de forma espontânea durante a navegação pelo feed e funciona como porta de entrada para aprofundamentos posteriores, seja na leitura dos livros, seja em outros espaços offline, despertando curiosidade em usuários que não buscariam literatura ativamente.
  • Antes do TikTok, embora livros já circulassem em outras bookredes, o impacto raramente transformava títulos em best-sellers instantâneos. O BookTok permite uma comunicação mais objetiva e autêntica, priorizando o conteúdo do livro em poucos segundos. Isso transmite maior credibilidade, especialmente para a geração Z.

Durante a observação participante da pesquisa foi possível perceber que a influência das redes sociais no comportamento de leitura é frequentemente reconhecida sem nomeação específica da plataforma com menções a “sucesso nas redes sociais” ou que “viralizaram”, sem necessariamente distinguir a plataforma de origem.

O BookTok frente às políticas públicas de leitura

Os achados da pesquisa indicam que o BookTok opera como mediador informal de práticas leitoras entre jovens, atuando onde políticas públicas tradicionais têm alcance limitado, uma vez que opera fora do escopo institucional do Estado, estruturado por lógicas privadas e mercadológicas.

Historicamente, políticas de leitura no Brasil, como a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE – Lei nº 13.696/2018) e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), estão ancoradas em mediações institucionais formais, com centralidade na escola, no professor e na biblioteca. O BookTok tensiona esse eixo ao evidenciar que a formação do leitor também ocorre em ambientes informais, afetivos e digitais, nos quais a recomendação entre pares, a identificação e o pertencimento comunitário assumem papel central.

Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia limites dessa mediação digital. A circulação de livros no BookTok está fortemente associada à compra, reforçando desigualdades de acesso pré-existentes. Embora amplie o desejo pela leitura, o BookTok não substitui políticas públicas para o acesso equitativo, podendo reforçar um modelo de incentivo baseado no consumo.

Ou seja, o BookTok não substitui as políticas públicas de leitura, mas atua de forma paralela e tensionada em relação a eixos já previstos pela PNLL. A plataforma dialoga com o fomento à leitura e à formação de mediadores, ao legitimar leitores como agentes de recomendação; contribui para a valorização simbólica da leitura, ao associá-la a pertencimento e visibilidade; e impacta a economia do livro ao influenciar circuitos de circulação e consumo. Ao mesmo tempo, evidencia limites persistentes no eixo da democratização do acesso, uma vez que a leitura promovida nas redes permanece fortemente vinculada à compra.

Assim, a análise do BookTok permite compreender como práticas leitoras contemporâneas se organizam em ecossistemas híbridos, nos quais mediações institucionais, digitais e mercadológicas coexistem, tornando visíveis contradições e desafios históricos das políticas de leitura no contexto digital, sem, contudo, romper com desigualdades estruturais de acesso.

Conclusão

/ o que buscamos compreender com esse estudo? Investigamos de que modo o BookTok, uma subcomunidade literária presente no TikTok, se manifesta nas práticas de leitura e de consumo de livros e como essas dinâmicas se conectam ao mercado editorial no Brasil, especialmente no contexto offline.

/ e o que encontramos? Os resultados indicam que o BookTok opera como uma infraestrutura de descoberta, mediação e validação social da leitura, articulando práticas digitais e experiências presenciais. A plataforma influencia a visibilidade de títulos específicos, a escolha de livros e a circulação comercial de obras, impactando tanto lançamentos quanto catálogos de fundo que voltam a figurar como best sellers.

A leitura emerge como uma prática social, afetiva e comunitária, especialmente entre jovens da Geração Z, deixando de ser uma prática individual para tornar-se prática baseada em identificação, pertencimento e compartilhamento. O consumo de conteúdos no BookTok amplia o contato com novos gêneros, autores e temas, incluindo narrativas marcadas por diversidade e representatividade, mas, ao mesmo tempo, revela tensões, como a preocupação com concentração em determinados gêneros, riscos de homogeneização de repertórios e menor centralidade da crítica literária aprofundada.

No plano do consumo, o livro não aparece apenas como texto, mas como bem simbólico, estético e midiático, associado à imagem, à performance e à identidade cultural. Essa influência se materializa no offline por meio da organização espacial das livrarias, das estratégias de destaque e curadoria, da mediação exercida por vendedores e da incorporação de linguagens próprias das redes sociais. O fenômeno também se estende a eventos literários, como Bienais do Livro, evidenciando sua capacidade de transitar entre ambientes digitais e presenciais.

/ e por que isso importa? O estudo revela transformações na comunicação, mediação e circulação do livro. O BookTok mostra como jovens leitores legitimam obras e definem a visibilidade no mercado editorial. Plataformas digitais integram a infraestrutura cultural do livro, influenciando práticas editoriais e comerciais. Essa dinâmica amplia o alcance de livros e autores, fortalece narrativas diversas e aproxima novos públicos da leitura.

Há riscos de padronização temática, concentração em gêneros específicos e menor espaço para crítica aprofundada, e reconhecer essas tensões permite uma atuação estratégica no mercado editorial e em políticas de leitura, potencializando efeitos positivos e mitigando a homogeneização de repertórios literários no Brasil.

O BookTok, assim como outras bookredes, mostra que a leitura não perdeu o espaço no contexto digital, mas mudou a forma como é mediada e consumida. O desafio é orientar suas forças para ampliar repertório, preservar diversidade e fortalecer a cultura de leitura no Brasil.

Direcionamento para futuros estudos

  1. Potencial pedagógico do BookTok: os estudos apontam tensões como risco de superficialidade interpretativa e homogeneização de repertórios, mas também benefícios como aproximação de jovens da leitura, representação de comunidades vulnerabilizadas e letramento literário e digital. Pesquisas futuras podem investigar os impactos no desenvolvimento de habilidades interpretativas, na atenção leitora e na formação de leitores a longo prazo.
  2. Análise quantitativa sobre leitura entre jovens: este estudo adotou uma abordagem qualitativa e exploratória. Investigações futuras podem incorporar dados quantitativos para analisar variações nos hábitos de leitura entre jovens, comparando períodos anteriores e posteriores à consolidação do BookTok, bem como diferenças por faixa etária, gênero, região e perfil socioeconômico.
  3. Entrevistas em profundidade: estudos futuros podem explorar a metodologia de entrevistas qualitativas com criadores e criadoras de conteúdo (BookTokers), leitores jovens e profissionais do mercado editorial (editoras, livreiros, curadores), buscando compreender estratégias de recomendação, processos de legitimação, critérios de curadoria e percepções sobre os impactos do BookTok no consumo e na circulação de livros.
  4. Democratização da leitura, diversidade e padronização de repertórios: estudos futuros podem investigar, de forma mais sistemática, se o BookTok atua predominantemente como mecanismo de democratização do acesso à leitura e ampliação de repertórios ou se tende a reforçar processos de padronização, homogeneização de gêneros e concentração de visibilidade em determinados títulos, especialmente a partir da lógica de recomendação de conteúdo.

Referências Bibliográficas

Anexo de Metodologia

Item Detalhes
Título BookTok Brasil e as novas experiências literárias
Pergunta de pesquisa De que modo o fenômeno BookTok se manifesta nas práticas de leitura e de consumo e como se conectam ao mercado editorial no Brasil, especialmente no contexto offline?
Resumo de metodologia Este estudo investigou de que forma o BookTok tem influenciado práticas de leitura e de consumo no Brasil e como se conectam ao mercado editorial. A metodologia é qualitativa, exploratória e descritiva, estruturada em duas etapas complementares. A coleta de dados combinou (i) revisão sistemática de literatura e síntese de conteúdo de estudos acadêmicos brasileiros publicados entre 2023 e 2025 sobre BookTok e (ii) pesquisa de campo com observação participante em 10 livrarias físicas na cidade de São Paulo, registrando memoriais descritivos e reflexivos com base em um checklist metodológico predefinido, além de conversas informais com vendedores e clientes. A análise aplicou síntese de conteúdo para integrar achados da literatura e análise temática qualitativa dos memoriais de campo, com o objetivo de identificar padrões e conexões entre a plataforma, práticas de consumo, leitura e dinâmicas do mercado editorial offline.

Coleta de dados

A coleta de dados neste estudo foi realizada por meio de revisão bibliográfica e de pesquisa de campo qualitativa baseada em observação participante. A coleta abrangeu duas frentes:

  1. Revisão sistemática de literatura (dados secundários). Foram reunidos estudos acadêmicos brasileiros publicados entre 2023 e 2025 que tratam do BookTok Brasil, incluindo artigos, dissertações e trabalhos em repositórios acadêmicos. A seleção incluiu apenas publicações que apresentassem análises, evidências empíricas ou discussões metodológicas sobre o tema, com o objetivo de mapear achados, padrões e lacunas na produção nacional.
  2. Pesquisa de campo (dados primários) com observação participante. Pesquisadoras do Reglab realizaram visitas a 10 livrarias físicas na cidade de São Paulo, com registro sistemático de memoriais descritivos orientados por um checklist metodológico predefinido. A observação buscou documentar elementos que indiquem a presença e a influência do BookTok no ambiente offline, incluindo: (i) seções, sinalizações ou mesas temáticas relacionadas ao BookTok; (ii) presença e destaque de livros “virais” na plataforma; (iii) estratégias de marketing e curadoria editorial; (iv) comportamentos e práticas de consumo/leitura observáveis no espaço; e (v) percepções de vendedores, funcionários e clientes obtidas por conversas informais durante as visitas.

Período de coleta dos dados secundários: 17 de novembro a 22 de dezembro de 2025.
Período de coleta dos dados primários: 4 a 18 de dezembro de 2025.

→ Revisão de literatura

Neste estudo, empregamos uma revisão sistemática de literatura para mapear como a academia brasileira tem analisado o BookTok e quais evidências já existem sobre seus efeitos nas práticas de leitura/consumo e na relação com o mercado editorial. A busca foi guiada pela pergunta de pesquisa e adotou critérios explícitos de seleção:

  • Recorte temporal: publicações de 2023 a novembro de 2025.
  • Recorte linguístico e geográfico: estudos em português e com foco no contexto brasileiro.
  • Tipos de documento incluídos: artigos acadêmicos, livros, dissertações, teses e TCCs disponíveis em bases e repositórios acadêmicos nacionais.
  • Termo de busca: “BookTok”.
  • Fontes consultadas: Google Acadêmico, Periódicos CAPES, SciELO, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e repositórios institucionais públicos de universidades brasileiras.

Fontes: ANDERSON, C.; REYNOLDS, Travis. Conducting a Literature Review. TORRACO, Richard J. Writing Integrative Literature Reviews.

→ Pesquisa de campo

A pesquisa de campo foi conduzida por meio de observação participante, um método qualitativo de inspiração etnográfica, voltado a compreender fenômenos sociais a partir da experiência direta no campo e da produção de registros descritivos e reflexivos.

No estudo, a equipe realizou visitas a 10 livrarias físicas em São Paulo, no período de 04 a 18 de dezembro de 2025, buscando abranger as diversas regiões da cidade, assim como de rua, de shopping, de rede e independentes, para capturar como o BookTok se manifesta no ambiente offline e de que modo influencia práticas de consumo e dinâmicas do mercado editorial.

As livrarias visitadas foram:

  1. Livraria Leitura – Shopping Ibirapuera
  2. Livraria da Vila – Shopping Center Norte
  3. Livraria Martins Fontes – Av. Paulista
  4. Livraria Megafauna – Centro
  5. Livraria Gato sem Rabo – Centro
  6. Livraria da Vila – Shopping Morumbi
  7. Livraria Leitura – Shopping Market Place
  8. Livraria Travessa – Pinheiros
  9. Livraria Leitura – Shopping Tatuapé
  10. Livraria Boralê – Shopping Boulevard Tatuapé

A coleta foi guiada por um checklist padronizado e resultou em memorandos de campo descritivos e reflexivos, com atenção para: presença de seções/sinalizações ligadas ao BookTok, destaque de livros “virais”, estratégias de marketing e curadoria, interações e comportamentos de clientes, e discursos mobilizados no espaço. Quando pertinente, foram realizadas conversas/entrevistas informais com vendedores e clientes das lojas para compreender percepções e rotinas relacionadas ao tema.

As interações realizadas em campo ocorreram de forma espontânea e contextual, como parte da estratégia de observação participante, com foco na compreensão de dinâmicas de consumo em livrarias. As conversas com vendedores e clientes tiveram caráter informal, sem registro de identidade ou tratamento de informações sensíveis. Trata-se de uma abordagem de baixo risco de exposição dos participantes.

Considerando a natureza exploratória da pesquisa e o objetivo de captar percepções situadas no ambiente observado, optamos por não utilizar termos formais de consentimento individual, para não interferir na naturalidade das interações em campo. Os dados da observação participante são contextuais e não generalizáveis. O observado é sensível a variáveis como horário, localização, perfil da loja e do bairro, visual merchandising e práticas da equipe. As evidências servem para gerar hipóteses e mapear mecanismos do BookTok (mediação do vendedor, tendências de conteúdo, centralidade da capa/viralização, contraste geracional), não para estimar a frequência desse fenômeno no país como um todo.

Fontes: MARIETTO, M. Observação participante e não participante. MARQUES, J. P. A “observação participante” na pesquisa de campo em Educação.

Análise de dados

Dados secundários da literatura

Após a identificação e triagem da revisão de literatura, os textos foram organizados e sintetizados por análise de conteúdo, com o objetivo de sintetizar achados recorrentes e organizar evidências empíricas sobre o BookTok no contexto brasileiro. A síntese resultante foi sistematizada em eixos temáticos, como:

  • influência do BookTok no mercado editorial;
  • comportamentos de leitura e consumo;
  • papel dos BookTokers como mediadores culturais;
  • dinâmicas comunitárias e incentivo à leitura;
  • estratégias de comunicação e formação do comportamento de leitura contemporâneo.

Em um segundo momento, foram identificados padrões recorrentes — temas reiterados e formas de manifestação do fenômeno BookTok descritas nos artigos e documentos. Esses padrões foram extraídos e organizados com apoio de ferramentas de inteligência artificial para organização de dados (Notion AI), utilizadas como instrumento auxiliar de sistematização, categorização e agrupamento temático. A partir desse processo de agrupamento, os padrões foram consolidados em temas analíticos mais amplos, que deram origem à estrutura das seções deste relatório.

Dados primários do campo: observação participante

A análise dos dados de campo foi conduzida a partir de registros produzidos por observação participante. Antes das visitas às livrarias, as pesquisadoras foram orientadas por um Guia de Observação, que estruturaram o olhar analítico e garantiram maior consistência e comparabilidade entre os registros, mitigando possíveis vieses. Durante as visitas, foram produzidas notas de campo com descrições do espaço, disposições editoriais, comportamentos e interações. Após cada visita, aplicou-se um checklist pós-visita, transformando as anotações em memoriais descritivos e reflexivos com sistematização das evidências (incluindo fotos). Esses memoriais foram analisados por análise temática qualitativa, identificando regularidades, contrastes e padrões de manifestação do BookTok no ambiente offline, além de diferenças contextuais entre tipos de livraria, públicos e estratégias de curadoria.

Procedimento de redução de vieses

Reconhecemos que toda pesquisa qualitativa envolve vieses interpretativos e que a observação participante, em particular, depende da sensibilidade e do olhar dos pesquisadores no campo. Ao longo do estudo, adotou-se uma postura de reflexividade contínua. No caso da pesquisa, as pesquisadoras possuíam familiaridade prévia com o BookTok, especialmente a partir da revisão de literatura sobre o tema. Essa familiaridade pode ter orientado, em alguma medida, o olhar empírico durante a observação em livrarias, no sentido de atentar para possíveis sinais de influência da plataforma no ambiente offline.

Para mitigar vieses, foram adotadas as seguintes medidas:

  • Instrumentos padronizados de observação: uso de guia de observação participante e checklists operacionais pré e pós-visita, garantindo maior consistência e comparabilidade entre os registros e as notas de campo;
  • Triangulação de dados: análise integrada entre dados de campo e achados da revisão de literatura, evitando inferências baseadas exclusivamente na observação empírica;
  • Critérios explícitos na revisão bibliográfica: definição prévia de termo de busca, recorte temporal e critérios pré-definidos de inclusão na análise;
  • Discussão conjunta dos registros: validação das interpretações entre os pesquisadores envolvidos no projeto.

Outras limitações metodológicas

  • Alcance Temporal: a análise de dados secundários limita-se a documentos publicamente acessíveis até novembro de 2025. Da mesma forma, a coleta de dados primários concentrou-se no período de dezembro de 2025, o que delimita temporalmente os achados empíricos do estudo.
  • Variabilidade do fluxo de pessoas nas livrarias: as observações dependeram da circulação de clientes nos espaços. O perfil do público variou conforme dia e localização, influenciando a diversidade de interações observadas.
  • Período de coleta de dados primários: o período de coleta coincidiu com o mês de dezembro, marcado por férias escolares e pelo aumento do consumo associado ao Natal. Esse contexto pode intensificar práticas de compra de livros e influenciar padrões de consumo.
  • Limitação geográfica: a observação participante foi realizada em livrarias da cidade de São Paulo. Embora o recorte tenha buscado diversidade de perfis e localizações, os achados podem não ser generalizáveis para outras regiões do Brasil.

Uso de software

Os softwares utilizados no desenvolvimento deste estudo foram:

  • Notion para edição de texto e planilhas, organização de dados e arquivos.
  • Notion AI para brainstorm, sistematização de informações, estruturação de dados, organização de elementos pré-textuais, revisão ABNT, adequação ao Manual de Redação Reglab.
  • Chat GPT 4o para sistematização de informações no campo.
  • App do TikTok para captura de prints e vídeos sobre o objeto de estudo.
  • Image Sorter para junção de imagens com semelhança visual para sistematizar capas de livros presentes no BookTok.
  • Suite Adobe CC para diagramação e finalização de gráficos e ilustrações.

Diretrizes éticas

Financiamento da pesquisa: Esta publicação foi patrocinada pelo Tiktok Brasil (BYTEDANCE BRASIL TECNOLOGIA LTDA.). Embora se trate de um estudo contratado, o Reglab manteve controle editorial e metodológico integral sobre o projeto, com definição autônoma da metodologia, análise dos resultados e redação do presente relatório de pesquisa. Os autores preservaram total independência profissional e assumem integral responsabilidade pelo conteúdo e pelas conclusões apresentadas.

Respeito à Privacidade e à Confidencialidade: Os dados utilizados são de domínio público e foram obtidos de fontes acessíveis, sem violar a privacidade ou a confidencialidade de qualquer indivíduo ou instituição.

Uso Responsável de Dados Públicos: Embora os dados analisados sejam públicos, seu uso foi feito de maneira responsável e ética, com o objetivo exclusivo de pesquisa independente.

Transparência Metodológica: A metodologia de pesquisa foi detalhada para garantir transparência e replicabilidade, contribuindo para a integridade científica e permitindo a validação dos resultados de maneira independente.

Não-discriminação e Respeito à Diversidade: A pesquisa foi conduzida de maneira a respeitar a diversidade e evitar qualquer forma de discriminação.