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Teachtok e as Novas Jornadas de Aprendizagem: Estudo sobre TikTok na Educação

O Reglab apresenta seu mais novo estudo: “Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem”.Nesta pesquisa qualitativa, investigamos como professores da educação básica e pré-vestibular estão utilizando plataformas de vídeos curtos como uma prática complementar ao trabalho em sala de aula. O estudo explora o conceito de Scroll Learning, onde a aprendizagem ocorre de forma não linear e incidental, e analisa a ascensão dos “Teachtokers” — educadores que combinam técnicas pedagógicas com a linguagem das redes sociais.

Os principais tópicos abordados são:

    • Mudança na relação Professor-Aluno: No ambiente digital, a relação entre professor e aluno fica mais próxima e menos formal.
    • Um complemento à educação formal: o TikTok é mobilizado como dispositivo de engajamento inicial, curiosidade e mediação cultural.
    • Uma nova didática: docentes articulam conteúdos educativos às linguagens da plataforma, ampliando o alcance escolar entre jovens.

Este relatório oferece dados e evidências para empresas, associações e formuladores de políticas públicas entenderem o futuro da educação mediada por algoritmos.

Citar

PORTAS, I. A.; BROMBINE, G.; RAMOS, P.; GARROTE, M. Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem. São Paulo: Reglab, 2026.
Portas, I. A., Brombine, G., Ramos, P., & Garrote, M. (2026). Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem. Reglab.
Portas, Isabela Afonso, Giulia Brombine, Pedro Ramos, e Marina Garrote. Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem. São Paulo: Reglab, 2026.

Autores

  • Pedro Henrique Ramos
  • Marina Garrote
  • Isabela Afonso Portas
  • Giulia Brombine

Tags

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Teachtok e as novas jornadas de aprendizagem

Sobre o Reglab

Somos um centro de pesquisa privado especializado no setor de mídia e tecnologia, que auxilia empresas, associações e formuladores de políticas a tomarem decisões estratégicas baseadas em dados e evidências.

Saiba mais em www.reglab.com.br.

Expediente

Diretor Executivo: Pedro Henrique Ramos

Coordenadora de Pesquisa: Marina Garrote

Autores(as): Pedro Henrique Ramos, Marina Garrote, Isabela Afonso Portas e Giulia Brombine,

Pesquisadoras: Isabela Afonso Portas, Giulia Brombine e Daniela Naomi Shimabukuro Nomura

Diagramação Final: Larissa Camargo

Citação Sugerida: PORTAS, I. A.; BROMBINE, G.; RAMOS, P.; GARROTE, M. Teachtok

e as novas jornadas de aprendizagem. São Paulo: Reglab, 2026.

Sumário Executivo

Este estudo investiga o surgimento dos “teachtokers” e como o ensino formal está se adaptando a plataformas de vídeos curtos. A partir de uma análise exploratória e entrevistas detalhadas com professores criadores de conteúdo, o Reglab analisou

como esse tipo de eduentretenimento (educação + entretenimento) está mudando a forma de ensinar.

A pesquisa explora os motivos para professores e professoras entrarem no ambiente digital, as estratégias para prender a atenção e as tensões entre a lógica dos formatos digitais e o aprofundamento conceitual e pedagógico.

Principais Achados:
  • O Fenômeno do Scroll Learning: A aprendizagem na plataforma ocorre de forma incidental e não linear. O aluno não entra no aplicativo necessariamente para estudar, mas descobre o conteúdo educacional enquanto busca entretenimento, criando uma dinâmica de aprendizado fluida e fragmentada.
  • Uma Nova Didática: As técnicas pedagógicas tradicionais estão sendo substituídas ou adaptadas. O conteúdo é estruturado em torno de “ganchos”, simplificação de conceitos complexos e uso de trends virais, desafiando a profundidade, mas também gerando interesse e curiosidade.
  • Mudança na Relação Professor-Aluno: No ambiente digital, a relação entre professor e aluno fica mais próxima e menos formal. O professor que antes era visto como uma figura distante passa a ser alguém mais acessível e humano, usando humor e uma linguagem mais descontraída para se conectar com os estudantes.
  • Profissionalização e Economia de Criadores: Para muitos professores, estar no TikTok vai além do desejo de “apenas ensinar”. Isso se tornou uma forma de fortalecer a carreira, ganhar visibilidade profissional e complementar a renda, colocando o professor dentro da lógica de mercado da economia de criadores de conteúdo.

Introdução

Professores e professoras brasileiras estão dando aula no TikTok. Não como experimento, não como brincadeira, mas como uma prática complementar ao trabalho em sala de aula, com milhões de visualizações e comunidades engajadas com os conteúdos escolares.

A plataforma virou palco de revisões para o ENEM, explicações de física quântica à curiosidades históricas. O fenômeno tem nome: TeachTok. Mais do que uma trend ou hashtag, trata-se de um espaço de diálogo e inovação entre educadores e educadoras de todo o mundo, que trocam recursos, ideias e estratégias a partir do compartilhamento de vídeos curtos na plataforma.

TikTok Educacional em Números

O formato dos conteúdos do TikTok, inclusive, também pode favorecer o desenvolvimento comunicacional dos docentes. Como vídeos curtos exigem síntese e concisão, eles levam os professores a destilar as informações mais importantes em pouco tempo, de forma mais objetiva. Recursos como dueto, reação, tela verde e costura2 ampliam as possibilidades de criação didática e favorecem interações que

tensionam a hierarquia tradicional entre professor e aluno (Vizcaíno-Verdú, Abidin, 2023).

Esse cenário dialoga com perspectivas pedagógicas que defendem a centralidade do contexto sociocultural do aluno nos processos educativos, por meio de uma

relação horizontal entre educador e educando. Ao mesmo tempo, é importante pontuar que o uso educacional do TikTok também apresenta desafios, como o risco de priorizar entretenimento em vez de conteúdo genuinamente educacional e a pressão pela viralização (Sánchez-López, Roig-Vila, Salcedo, 2023; Vizcaíno-Verdú, Abidin, 2023)

Diante de tudo isso, surgem diversas questões: como esses educadores produzem conteúdo? O que os motiva? Como equilibram rigor pedagógico e viralização? O que essa migração para o digital revela sobre os limites e as possibilidades da educação contemporânea?

Metodologia

Esta pesquisa utilizou uma abordagem qualitativa para entender como professores e professoras brasileiras da educação básica e de cursinhos pré-vestibulares usam o TikTok em sua prática de ensino. O estudo buscou investigar como esses educadores criam conteúdo educacional na plataforma e como percebem questões relacionadas ao engajamento, à visibilidade e à interação com os estudantes.

Inicialmente, foi realizada uma revisão de literatura sobre TeachTok, uso do TikTok na educação e pelos professores. As referências foram selecionadas a partir de buscas sistemáticas em bases acadêmicas nacionais e internacionais, priorizando estudos recentes e recorrentes na área.

Na sequência, a coleta de dados coleta de dados foi estruturada em duas etapas complementares. A primeira consistiu em um mapeamento exploratório de perfis de professores que produzem conteúdo educacional no TikTok. Essa etapa teve como objetivo delinear o universo empírico da pesquisa e identificar padrões iniciais de atuação docente na plataforma. Para isso, realizou-se uma busca sistemática por perfis de professores, com o registro de dados quantitativos como área de ensino, número de seguidores e número geral de curtidas. Ao todo, foram mapeados 54 profissionais.

2 Reação: Recurso de selecionar o comentário de um usuário em uma postagem e respondê-lo por meio de um vídeo. Dueto: Quando o usuário grava um vídeo que é exibido ao lado de um conteúdo previamente publicado por outro perfil. Tela Verde: Refere-se à capacidade de utilizar outra imagem ou vídeo como plano de fundo para o próprio conteúdo. Costurar: Funcionalidade de recortar e utilizar cenas de vídeos de outros usuários em uma postagem própria.

A segunda etapa concentrou-se na realização de entrevistas em profundidade semiestruturadas com uma amostra de sete profissionais que publicam conteúdo didático no TikTok e atuam no Ensino Fundamental, Ensino Médio ou em cursos pré-vestibulares, conforme a Tabela 1. A escolha pelo uso deste método partiu do entendimento de que a entrevista não constitui um mecanismo de transmissão unidirecional de informações, mas um empreendimento cooperativo no qual entrevistador e entrevistado constroem conjuntamente ideias e significados, permitindo a exploração e o desenvolvimento de diferentes realidades e percepções (Gaskell, 2008).

Para entender melhor esse cenário, conversamos com professores e professoras que criam conteúdo educacional no TikTok, investigando como produzem seus vídeos, como interagem com estudantes e seguidores, quais suas percepções sobre a plataforma como espaço de aprendizagem e as suas sugestões para fortalecer o papel educacional da rede no Brasil.

Dados gerais
Anelize Vergara (@profanelize)Atua em ONG, como voluntária, em Cursinho Pré-vestibular
  • Experiência anterior em Fundamental II e Ensino Médio
  • É professora de história há 11 anos (desde 2014)
  • Seu público é de professores iniciantes.
Antônio (@profantoniogeografia)Atua em Fundamental II (9º ano) e Ensino Médio na Rede Estadual de SC
  • É professor de Geografia (interdisciplinar com História/Sociologia) há 16 anos
  • Seu público é formado pela comunidade escolar e público geral (advogados, médicos, políticos).

Daniel Almeida (prof.danielalmeida)Atua em Ensino Médio e Cursinho Pré-vestibular na Rede Estadual do Paraná, Rede Privada e Cursinho Universitário (UEL);É professor de história há 8 anos;Seu público é formado 80% de vestibulandos e 20% de adultos/pais.

Jorge (@profjorgeabreu)Atua Ensino Fundamental II (6º e 7º anos atualmente) na Rede Particular e também no Ensino Médio/Faculdade se necessário
  • É professor de matemática há 14 anos
  • Seu público é formado por estudantes e “amantes da matemática”.
Josiane (@prof.josianearaujo)Atua em Ensino Fundamental I e II (Anos Iniciais e Finais) da Rede Pública Municipal
  • É professora há 5 anos de Inglês, Português e História
  • Seu público é formado por estudantes de graduação e interessados em Literatura e História.
Rafael (@purafisica)Atua em Cursinho/Isolada (Preparação para Medicina)
  • Anteriormente foi professor do Ensino Médio
  • É professor de física há quase 20 anos
  • Seu público é formado por vestibulandos de medicina e jovens adultos entre 24-34 anos.
Victor Polilo (@professorvictorpolillo)Atua no Ensino Fundamental II (Anos Finais), Ensino Médio e Cursinho Pré-vestibular da Rede Privada
  • É professor de matemática há 10 anos
  • Seu público é formado por vestibulandos e jovens de 19 a 29 anos.

Para analisar as entrevistas, usamos a análise temática, um método da pesquisa qualitativa, que ajuda a identificar padrões e temas que aparecem com frequência nas falas dos participantes. O processo funciona assim:

  • Lemos com atenção as transcrições e marcamos os trechos mais importantes e, conforme o caso, damos a cada um deles uma etiqueta descritiva – palavras ou frases curtas que resumiam o que estava sendo dito. Chamamos isso de códigos.
  • Em seguida, juntamos esses códigos por semelhança, criando grupos maiores, que funcionam como categorias.
  • Por fim, organizamos essas categorias em temas, que representam os padrões mais importantes encontrados e que nos ajudam a dividir o texto.

Esse método garante que nossas conclusões estejam sempre baseadas no que os entrevistados realmente disseram, e não em achismos. A metodologia completa pode ser consultada no anexo deste relatório.

1º Nível
de codificação
(categorização inicial)
2º Nível
de codificação (agrupamento de códigos)
3º Nível
de codificação
(Temas)
“a minha primeira licenciatura é em letras, Disciplinas de
português e inglês. Depois eu fiz pedagogia, atuação
depois eu fiz história” (Josiane)
“Sou professor da rede estadual de Santa Catarina Escolas públicas ou
desde 2015” (Antônio) privadas
“Eu trabalho com os anos finais do fundamental, Nível de ensino que
oitavo e nono ano e ensino médio” (Victor) atua Dados gerais
“A a faixa etária que mais me segue, que tem o Público atual
maior percentual é de 24 a 34 anos.” (Rafael)
“Atuei durante 11 anos, desde do sexto ano até o Tempo de sala de
ensino médio.” (Anelize) aula
1º Nível de codificação (categorização inicial) 2º Nível de codificação (agrupamento de códigos) 3º Nível de codificação (Temas)
“Eu, na verdade, me formei em professor no ensino médio.
Coisa que eu nunca quis, nunca quis ser professor,
nunca imaginei. Só que aí o destino é fogo.” (Jorge)
A descoberta da docência Trajetória
“Então, na pandemia, os alunos do cursinho falaram,
professor, grava essas aulas para gente. E aí eu falei,
tá, mas pô, gravar a aula… é pesada. Eu tenho que passar
para o computador… e aí eles falaram não, não precisa mandar,
cria um canal no YouTube e vai colocando essas aulas lá.”
(Victor)
A pandemia e a entrada no digital
“Eu busco informações, eu encontro textos e refaço textos pra mim
que adapte pro modelo que eu vou apresentar. Então é sim toda a cadeia
produtiva do início ao fim, sou eu quem cuido.” (Antônio)
Processo de criação Entre a sala de aula e o ambiente digital
“Aí eu falei, gente, esses dias eu vi no TikTok,
fulano falando sobre isso e é um ponto importante.
Depois vocês assistem o vídeo dele.” (Anelize)
Conteúdos usados em sala de aula
“Quando eu vejo que a sala inteira não entendeu um assunto,
eu acho que mais gente com certeza não entendeu também.
E aí eu levo esse assunto pelo menos como dica.” (Victor)
Onde surgem as ideias
“O meu trabalho todo é só com a internet, com a formação de professores,
com as redes sociais na internet.” (Anelize)
Visibilidade, conversão e sustentabilidade do trabalho docente no digital
“Eles tem muito professor, como aquela figura chata que vai pegar
a conta deles e não sei o que. E o professor do TikTok é um professor
mais legal, então eles conseguem lidar melhor com a Josiane do TikTok,
que com a Josiane do pessoal.” (Josiane)
Aproximação com os alunos Aprendizagem
“Desde o início eu vi o espaço TikTok como um ambiente favorável à educação
e que incentiva, né? Porque eu sempre fui incentivado pela plataforma
em vários momentos.” (Antônio)
Dá para aprender no TikTok?
“Hoje eu penso muito as minhas aulas pra serem parecidas com um vídeo curto.
Eu sei que eu botei ali um minuto, 2 minutos, 3 minutos de atenção,
então eu tento chinelar ali e fazer com que aquilo seja atrativo.”
(Josiane)
Aprendizados decorrentes da produção de conteúdo
1º Nível de codificação
(categorização inicial)
2º Nível de codificação (agrupamento de códigos) 3º Nível de codificação (Temas)
”Mas o meu processo de produção não dura 1 hora, Desafios da Dupla Desafios
né? Ele é bem grande, então eu não tenho tempo Jornada Desafios
hábil, porque eu trabalho 40 horas.” (Antonio) Desafios
“Muitos professores não tem essa educação Desafios
midiática, esse letramento de coisas que para Desafios
gente parece muito óbvio, muito básico, mas Aprendendo Desafios
muitos professores não tem, desde baixar um Sozinhos a Falar Desafios
aplicativo até entender como é que é a dinâmica uma Nova Língua Desafios
da rede. Eu acho que falta um pouco de formação Desafios
nisso.” (Anelize) Desafios
“Você só vai produzir. É conteúdo que é raso, Desafios
conteúdo raso, ensina? Ensina, mas é um conteúdo A Armadilha do Raso Desafios
temporário. Entra na cabeça, daqui a pouco sai”. Desafios
(Jorge) Desafios
“Eu acho que hoje, mais que ver como um Desafios
espaço legítimo de de aprendizagem ou não, Desafios
a gente precisa transformá-lo em um espaço A Batalha Desigual Desafios
de aprendizagem, porque uma coisa é fato. Eu pela Atenção Desafios
perdi os meus alunos pro TikTok. Eu não sou mais Desafios
divertida que o TikTok.” (Josiane) Desafios
“Hoje em dia, na internet, quem tem mais seguidor Quando Seguidores Valem Mais que Desafios
é autoridade.” (Jorge) Desafios
Diplomas Desafios
“Uma das coisas que me travava muito em relação
a isso era, ”mas tem um Monte de gente ensinando Recomendações
isso na internet“ e eu descobri e eu ouvi isso para professores
algumas vezes. Que cara tem um Monte de gente ensinando, mas não tem um Monte de gente ensinando do jeito que você ensina.” (Josiane) que desejam produzir conteúdo Recomendações
Recomendações
“Eu acho que tem que ter uma coisa mais incisiva até a nível de algoritmo, assim, “esses canais com esse tipo de conteúdo nós vamos hackear um algoritmo e vamos dar para eles um alcance, seja Apoio Institucional do TikTok e Perspectivas futuras
vídeo curto, seja vídeo longo”. (Rafael)

Trajetória

As entrevistas revelam que a trajetória profissional das professoras e professores entrevistados é marcada por percursos não lineares, tanto no ingresso na docência quanto na adoção do TikTok como espaço de produção de conteúdo educacional.

  • De modo geral, a docência não surgiu, para a maioria dos participantes, como uma escolha inicial planejada, mas como uma alternativa que se consolidou a partir da prática e da identificação com o trabalho em sala de aula.
  • Dinâmica semelhante se observa na entrada no ambiente digital: o uso do TikTok emergiu, em grande parte, como resposta a contextos contingenciais,

especialmente a pandemia, e, posteriormente, passou a ser incorporado de forma mais estruturada às práticas docentes.

Para a maioria dos entrevistados, a docência surgiu como possibilidade circunstancial, ligada a transições, desemprego ou redirecionamento profissional. O contato direto com a sala de aula foi decisivo para ressignificar a profissão, que passou de opção secundária a lugar central em suas trajetórias.

Josiane Araújo, professora de inglês e português, começou a dar aulas para ocupar o tempo, sem intenção de seguir carreira docente, mas descobriu afinidade com o ensino na prática:

“Então ser professora não foi a minha primeira escolha de forma alguma. Na verdade, eu nunca me imaginei professora […] eu estava desempregada, eu não tinha o que fazer e aí eu comecei a dar aula de inglês num projeto pra ocupar meu tempo mesmo. E aí eu descobri que eu que eu gostava muito de dar aula”.3

Processo semelhante aparece no relato de Jorge Abreu, professor de matemática, que descreve resistência inicial à formação docente, superada durante o estágio obrigatório, quando passou a se reconhecer no papel de professor:

“Passei a gostar depois que eu comecei a fazer estágio […] e eu me amarrei naquilo, pô, eu dentro de sala de aula, sendo autoridade”.

3 Em determinadas circunstâncias, procedeu-se a adaptações linguísticas específicas nas citações apresentadas neste estudo para assegurar a intenção original dos entrevistados na transcrição textual. A preservação do registro discursivo foi mantida sempre que possível, respeitando os princípios metodológicos estabelecidos.

Outros entrevistados tinham trajetórias voltadas à pesquisa acadêmica, mas foram redirecionados a partir de oportunidades de atuação no ensino básico. Anelize Vergara, professora de história, embora almejasse a carreira universitária, redefiniu sua relação com a docência ao atuar em escola após o mestrado:

“Meu foco sempre foi a pesquisa. Eu tinha vontade de ser professora universitária e tudo mais, mas aí, quando eu defendi o mestrado […] eu consegui aula numa escola aqui na minha cidade e aí eu acabei ficando, gostando muito”.

A entrada no TikTok esteve fortemente associada a contextos de adaptação forçada, especialmente durante a pandemia de Covid-19. O isolamento social e o ensino remoto funcionaram como catalisadores para a experimentação de formatos digitais.

Rafael Irigoyen, professor de física, já produzia conteúdo no YouTube desde 2012, mas foi em 2020 que direcionou esforços para o TikTok, devido ao crescimento da plataforma e à necessidade de adaptar sua linguagem:

“Eu comecei, digamos, a mudar a minha forma de produzir conteúdo, ou pelo menos é, digamos assim, o foco foi 2020, foi no ano da pandemia”.

Outros entrevistados viram no TikTok oportunidades de experiências pessoais durante o isolamento social. Antônio Ferreira, professor de geografia, relata que a produção de vídeos surgiu como forma de lidar com a clausura, o que acabou despertando interesse pela linguagem audiovisual e pela edição. Em 2021, foi convidado para o programa de aceleração da plataforma.

Para além dos incentivos oferecidos pela empresa, a migração para o digital também respondeu a limites dos modelos de ensino remoto, especialmente quanto ao alcance dos materiais. Daniel Almeida, professor de história, destaca que:

“Na pandemia, a gente teve a ideia de continuar as aulas, só que no formato remoto. E aí tinha a possibilidade de colocar aula no drive. Só que a aula no drive, ela ficava mais restrita”

Em alguns casos, a iniciativa partiu dos próprios alunos. Victor Polillo, professor de matemática, começou a gravar aulas a pedido dos estudantes durante o ensino remoto. Embora a sugestão inicial fosse o YouTube, o TikTok se mostrou viável, inclusive por oferecer incentivos financeiros à produção educacional:

“O TikTok dava incentivo, inclusive financeiro, para que a gente produzisse mais para aquela plataforma e para justamente perder esse estigma de plataforma de dancinha”.

A entrada na plataforma também se relacionou a momentos específicos da vida pessoal. Josiane Araújo iniciou a produção de conteúdo durante a licença-maternidade, motivada pela ausência da rotina escolar e pelo desejo de manter vínculo com o ensino:

“Foi na licença maternidade do meu filho […] eu comecei a sentir falta de dar aula […] E aí eu fiquei pensando, e se eu unisse o útil ao agradável nesse momento que eu não tô fazendo nada da minha vida e começasse a gravar uns vídeos sobre isso?”.

A Sala de Aula e o Ambiente Digital

As entrevistas evidenciam que a atuação dos professores no TikTok se constrói a partir de uma relação contínua entre a prática docente nas escolas/cursinhos e no ambiente digital. Longe de operarem como esferas dissociadas, sala de aula e plataforma de rede social se retroalimentam: experiências, dificuldades e interações do cotidiano escolar informam a produção de conteúdo, enquanto a lógica do vídeo curto

e da comunicação digital impacta a prática pedagógica presencial. Em outras palavras, os participantes descrevem um movimento cíclico, no qual o TikTok funciona simultaneamente como espaço de experimentação pedagógica, vitrine profissional e extensão simbólica da sala de aula.

Os relatos indicam que a produção de conteúdo educacional no TikTok é feita pelos próprios professores, que realizam todas as etapas: pesquisa, planejamento, gravação e edição. Esse modelo individual, chamado de “eu-quipe”, demanda tempo

e esforço para adaptar conteúdos complexos a formatos curtos, dinâmicos e

alinhados à lógica de circulação da plataforma.

A busca por naturalidade é central e está ligada à tentativa de reproduzir no ambiente digital estratégias comunicacionais já consolidadas na sala de aula. Josiane, por exemplo, evita roteiros formais e prefere uma comunicação espontânea, similar à das aulas presenciais:

“Não faço roteiro porque eu não sei seguir roteiro. Eu não sei decorar roteiro. Se eu coloco no teleprompt eu me perco… as piadinha que eu faço na sala de aula são as piadinhas que eu faço nos vídeos”.

Antônio destaca a impossibilidade de delegar etapas do processo criativo, ressaltando que as decisões sobre linguagem, enquadramento e edição fazem parte de um raciocínio pedagógico individual:

“Eu não tenho como delegar alguma parte do meu processo. Porque sou eu que tenho que raciocinar, como que eu vou fazer o movimento de câmera ou como que eu vou é, quais imagens que eu vou usar, o que que eu vou falar”.

Anelize, por sua vez, associa a produção autônoma à própria identidade do TikTok, enfatizando que a estética menos elaborada é percebida como parte do valor comunicacional da plataforma:

“No TikTok é justamente essa naturalidade, se é algo mais orgânico, inclusive até para a edição do vídeo. Então, por exemplo, eu mesmo edito, eu não fico muito preocupada de ser algo esteticamente super maravilhoso”.

Além da produção de conteúdos para a rede, os professores entrevistados relatam usar o TikTok como recurso pedagógico em sala de aula, seja compartilhando vídeos próprios com alunos ou fazendo curadoria de conteúdos de outros criadores.

Rafael descreve a incorporação direta de seus vídeos à rotina escolar, especialmente como material de apoio complementar:

“Ali no WhatsApp, eu mando para os alunos para eles verem as imagens e tudo mais, assim. Então, o conteúdo do do TikTok, ele está dentro da minha sala de aula”.

Anelize também destaca a dimensão de curadoria e troca com os estudantes, ressaltando que o uso de referências da própria plataforma contribui para aproximar o conteúdo escolar do repertório cultural dos alunos:

“Gente, esses dias eu vi no TikTok, fulano falando sobre isso e é um ponto importante. Depois vocês assistem o vídeo dele… eu fui indicando ou eles me traziam também da bolha deles”.

A sala de aula presencial tem um papel central na definição dos temas dos vídeos. Dúvidas recorrentes e dificuldades dos alunos são convertidas em pautas para a produção de conteúdos digitais, reforçando a ideia do TikTok como extensão da prática docente e permitindo reelaborar problemas pedagógicos para públicos amplos.

Exemplos não faltam para todos os entrevistados. Victor identifica nas lacunas de compreensão dos estudantes uma oportunidade de ampliar o alcance de explicações que extrapolam o espaço escolar:

“Quando eu vejo que a sala inteira não entendeu um assunto, eu acho que mais gente com certeza não entendeu também. E aí eu levo esse assunto pelo menos como dica”.

Já Rafael descreve um processo mais sistematizado de registro dessas ideias, integrando o cotidiano docente à sua organização de produção digital:

“Hoje eu já tenho um sistema de produção, eu tenho um trelo… quando me ocorre alguma coisa que as vezes eu estou em sala de aula dando aula mesmo no meu curso e tal me surge um ‘isso aqui é bom pra virar vídeo’”

Essa escuta ativa também pode ser sistematizada por meio de ferramentas de comunidade. O professor Daniel Almeida, por exemplo, utiliza grupos de WhatsApp para que os próprios estudantes definam as pautas dos vídeos, garantindo que o conteúdo responda a dores reais:

“Eu consegui convergir o interesse deles ao meu benefício. (…) Quando eles acham alguma coisa, eles mandam na comunidade e isso me ajuda. (…) Então meu roteiro de vídeos, basicamente quem produz são os meus alunos.’”

Por fim, o TikTok também funciona como ferramenta de visibilidade profissional, servindo de porta de entrada para cursos, mentorias e produtos educacionais fora da plataforma. De modo geral, a monetização direta por visualizações é considerada limitada, sendo a conversão da audiência o principal objetivo estratégico.

Daniel descreve o Tiktok como um canal de descoberta de seus produtos:

”Minha monetização com esses trabalhos são alunos que eu pego na comunidade, que querem uma mentoria e querendo o programa de estudos”

Anelize relata experiências de conversão mesmo sem estratégias estruturadas de tráfego pago:

“Já fiz vendas pelo pelo TikTok também, não tanto, porque eu ainda não fiz tráfego pago nem nada, mas já fiz muitas vendas”

As entrevistas mostram trajetórias distintas quanto à sustentabilidade financeira do trabalho digital. Alguns professores consolidaram sua atuação majoritariamente online, enquanto outros veem a renda como complementar ou instável.

Jorge destaca a autonomia alcançada por meio da produção digital:

“Eu estou gravando meu curso… e viver da internet. Como eu já estou conseguindo viver, não é? Não estou rico ainda, mas já estou conseguindo viver”.

Em contraste, Rafael ressalta a imprevisibilidade desse modelo:

“Eu não monetizo o conteúdo em si no sentido de ele não me dá uma renda suficiente pra eu viver disso. […] É muito altos e baixo”.

Os depoimentos indicam que, embora o TikTok amplie oportunidades de visibilidade e conversão, a consolidação do digital como principal fonte de renda docente permanece condicionada a fatores individuais e às dinâmicas da plataforma.

Aprendizagem

As entrevistas revelam que a discussão sobre aprendizagem no TikTok não se organiza apenas em torno da transmissão de conteúdos, envolve dimensões afetivas, relacionais e contextuais que atravessam a experiência educativa. Para os professores, a plataforma opera como um ambiente de aproximação e encontro com o conhecimento, no qual a aprendizagem é frequentemente indireta, fragmentada e situada.

A presença docente em plataformas digitais é percebida como relevante para a aproximação pedagógica e o engajamento em sala de aula. Estar no TikTok

é compreendido como uma forma de reconhecer os repertórios culturais dos alunos e estabelecer pontes entre o digital e a escola. Como diz Victor,

“O artista tem que ir onde o público tá, né? A ideia é a mesma para mim.”

Ao ocupar o mesmo espaço digital que os estudantes, os docentes relatam uma redução da distância simbólica com a figura tradicional do professor. A atuação no TikTok contribui para uma imagem mais acessível e próxima, que

contrasta com a autoridade formal da sala de aula. Embora não substitua práticas

pedagógicas estruturadas, essa aproximação é percebida como um fator que cria condições mais favoráveis para o engajamento e para a circulação do conhecimento.

Josiane descreve esse deslocamento ao comparar a percepção dos alunos sobre o professor presencial e sua versão digital:

“Eles têm muito o professor como aquela figura chata… E o professor do TikTok é um professor mais legal.”

Essa aproximação é associada, pelos entrevistados, a efeitos positivos no engajamento dos estudantes. Ainda que não seja entendida como garantia de aprendizagem, a criação de vínculos afetivos é vista como um facilitador do processo pedagógico.

“Isso causa uma aproximação, sim, do aluno com o professor. Não necessariamente isso é convertido em interesse na aula, mas ajuda.”

Para Daniel Almeida, essa presença digital altera a percepção que o estudante tem da figura de autoridade, tornando-a mais acessível:

“Agora, eles, eu estando presencial, eles têm um afastamento. Só que se eu tenho uma presença digital… eles me humanizam muito mais. (…) Eu chego na sala de aula, o aluno, ele já está um pouco mais íntimo.”

Por outro lado, embora reconheçam seu potencial educativo, a plataforma ainda é vista como um espaço de aprendizagem incidental, no qual o conhecimento emerge a partir do encontro casual com conteúdos educativos durante o consumo cotidiano da rede.

“Eles acabam tendo a chance de cruzar com conteúdos realmente focados na educação deles.”

“É espaço de aprendizado, mas não proposital”.

Anelize reconhece simultaneamente o potencial educativo e os riscos associados à plataforma, especialmente no que diz respeito à possibilidade de circulação de conteúdos que demandam contextualização e aprofundamento:

“É uma ferramenta para educação muito importante. Ao mesmo tempo, tem muito clickbait, muita informação errada.”

A experiência de produzir conteúdo educacional para o TikTok também é formativa para os próprios professores. O formato de vídeo curto exige o desenvolvimento de competências de síntese, clareza comunicacional e gestão da atenção, habilidades incorporadas à prática docente presencial:

“Eu acredito que eu aprendi a falar melhor, a me expressar melhor.”

“O roteiro do vídeo curto me ensinou a ser muito mais sucinto na informação que é mais relevante.”

“Hoje eu penso muito as minhas aulas pra serem parecidas com um vídeo curto.”

Dicas e Recados dos “Teachtokers”

As entrevistas mostram que os professores veem o TikTok como espaço para fortalecer ensino e aprendizagem, indicando caminhos para ampliar a presença de conteúdo educacional na plataforma.

Os professores e professoras entrevistadas encorajam colegas a produzir conteúdo sem buscar perfeição técnica ou temas exclusivos. Autenticidade e didática própria são diferenciais para construir vínculo com o público.

“Tem um monte de gente ensinando, mas não tem um monte de gente ensinando do jeito que você ensina.”

“Os professores estão perdendo uma chance, às vezes, de estar mais próximo dos alunos deles em sala de aula, por não utilizar aquilo que os alunos já consomem.”

“No processo, me dá muito prazer, porque eu estou aprendendo.”

Os participantes ressaltam que a consolidação do TikTok como espaço de aprendizagem depende de valorização institucional do conteúdo

educacional. Professores identificam dificuldades estruturais para que a educação ganhe visibilidade orgânica diante do predomínio do entretenimento, e avaliam positivamente iniciativas anteriores da plataforma de incentivo à produção educacional, com programas de apoio e estímulos financeiros.

“É muito difícil a educação competir no algoritmo com o entretenimento (…) se o TikTok quer virar um espaço de educação, tem que abraçar a educação de uma maneira mais institucional”

Desafios

Apesar do potencial do TikTok como espaço de circulação de conteúdos educacionais, os professores entrevistados apontam uma série de desafios associados à produção de conteúdo na plataforma. Esses desafios decorrem tanto das condições materiais do trabalho docente quanto das dinâmicas próprias do ambiente digital, marcado pela lógica da atenção, pela centralidade do engajamento e pela curadoria automatizada.

As percepções reunidas indicam tensões entre ensinar, produzir conteúdo de forma sustentável e se adaptar às diferentes normas implícitas da plataforma.

Um dos principais desafios apontados é a sobrecarga de trabalho na produção de conteúdo digital, comum entre professores da rede pública. Criar vídeos para o TikTok adiciona horas não remuneradas à rotina docente, já marcada por jornadas

extensas. Pesquisa, gravação, edição e publicação ocupam tempo que se sobrepõe a responsabilidades profissionais e pessoais.

“Mas o meu processo de produção não dura 1 hora, né? Ele é bem grande, então eu não tenho tempo hábil, porque eu trabalho 40 horas”.

“Eu trabalho 30 horas na prefeitura, eu tenho dois filhos pequenos, então eu tenho essa dificuldade de tirar um tempo para gravar”.

Outro desafio é a falta de formação para uso pedagógico de redes sociais. Escolas e secretarias de educação não oferecem capacitação técnica ou pedagógica para a produção de conteúdo digital. Os profissionais aprendem sozinhos, por tentativa e erro, o que aumenta desigualdades entre docentes e limita o uso educacional da plataforma.

“muitos professores não tem essa educação midiática, esse letramento […] desde baixar um aplicativo até entender como é que é a dinâmica da rede”.

“Não há formação sobre educação midiática […] foi tudo muito do empirico”.

Os entrevistados destacam características próprias do formato de vídeo curto, que impõem desafios à abordagem de conteúdos mais complexos. Embora reconheçam o potencial do TikTok como porta de entrada para o interesse dos estudantes, há

consenso de que a plataforma atua de forma complementar, não substituindo práticas pedagógicas voltadas ao aprofundamento e à consolidação da aprendizagem.

Victor expressa preocupação com a ilusão de aprendizagem promovida por conteúdos condensados.

“Eu não tento ensinar Matemática para ninguém. Eu simplesmente dou dica de alguma coisa, apresento uma curiosidade… é muito sedutora a ideia do aprenda equação de segundo grau em 1 minuto e meio”

Essa leitura é reforçada por Rafael, que reconhece de forma explícita os limites do formato de vídeo curto e afasta a pretensão de aprofundamento equivalente ao da sala de aula:

“É superficial, eu tenho plena consciência que o que eu exploro ali naquele curto intervalo de tempo, ele é algo superficial. Não dá para ter a pretensão de ser super aprofundado como numa sala de aula”.

Profissionais também relatam dificuldades para adaptar formatos tradicionais de ensino ao ambiente da plataforma. Videoaulas mais longas ou expositivas tendem a ter baixo desempenho no feed:

“Se tu só botar aquele formato tradicional de vídeo aula, quem tá escrolando ali na no feed passando vídeo pra cima não está interessado numa vídeo aula de física […] Esse conteúdo de videoaula de sala de aula, ele tem muita dificuldade de penetrar nesse formato curto”.

Há, ainda, a preocupação com os impactos do consumo contínuo de vídeos curtos sobre a capacidade de concentração dos estudantes, especialmente em contextos que exigem longos períodos de foco:

“Esse formato de vídeo curto esse engaja demais e atrapalha a capacidade de concentração, de ter foco para alguns períodos de tempo. Isso é uma coisa que eu luto bastante e tenho essa discussão com eles, porque eles estão na preparação para medicina, então eles precisam de longos períodos de foco.”

Essa preocupação também se relaciona com a disputa de espaço com vídeos de entretenimento que exigem menor esforço cognitivo e tendem a gerar maior engajamento. Tal assimetria desfavorece os professores na plataforma.

“Eu perdi os meus alunos pro TikTok. Eu não sou mais divertida que o TikTok” (Josiane).

Por fim, os professores apontam a inversão de critérios de autoridade no ambiente digital como um desafio relevante. No TikTok, o número de seguidores frequentemente se sobrepõe à formação acadêmica como indicador de legitimidade, expondo professores qualificados a questionamentos e ataques.

“Hoje em dia, na internet, quem tem mais seguidor é autoridade. O cara pode ter nada, não pode ter se formado, mas se tem mais seguidor que você, ele é mais autoridade do que você” (Jorge).

“O que me incomoda é ver um público grande botando em xeque aquilo que eu tô falando (Antônio)”

“A quantidade de vezes que eu fui corrigido sem estar errado é impressionante” (Rafael).

Análise e comentários

Diante das perspectivas compartilhadas nas entrevistas realizadas com professores e professoras que criam conteúdo educacional no TikTok, buscamos compreender como essas experiências dialogam com estudos sobre aprendizagem mediada por tecnologias e com as dinâmicas próprias das plataformas digitais. Em pesquisas qualitativas, consensos recorrentes podem refletir tanto experiências estruturais comuns quanto efeitos de visibilidade e circulação discursiva próprios do ambiente digital. Assim, a questão que orienta esta análise é: as percepções docentes sobre o TeachTok encontram respaldo em estudos empíricos e teóricos sobre educação em plataformas?

A análise a seguir se concentra em três pontos de convergência entre os entrevistados: (i) a reconfiguração da autoridade e identidade docente; (ii) o TikTok como espaço de aprendizagem por descoberta e aproximação com os alunos; e (iii) os limites estruturais do formato de vídeo curto para o aprendizado.

Reconfiguração da identidade e autoridade docente

Os relatos dos professores indicam uma transformação na forma como a autoridade docente é construída no ambiente digital. Em vez de se apoiar exclusivamente na posição institucional da escola, essa autoridade passa a ser negociada por meio da linguagem, da identificação cultural e da presença contínua na plataforma. Essa percepção encontra respaldo na definição do TeachTok de Vizcaíno-Verdú e Abidin (2023) como uma subcultura digital marcada por processos de microcelebrificação docente.

Baseando-se nos estudos de Barber (2014), Nuruddin-Hidayat et al. (2020), Camas-Garrido et al. (2021), Eriksson-Krutrök (2021) e Grillo e Kier (2021) para compreender como os professores interagem com as mídias sociais com foco no ensino e microcelebrificação, Vizcaíno-Verdú e Abidin (2023) entendem que os professores que atuam no TikTok constroem suas identidades públicas a partir de quatro pilares:

  • responsabilidade – demonstração de competência pedagógica e compromisso ético com a disseminação do conhecimento de forma acessível e confiável
  • compromisso – dedicação ao planejamento e à produção de conteúdo, incluindo a gestão do tempo para abordar temas que vão além do currículo estritamente acadêmico
  • autoridade – construção de legitimidade não hierárquica, mas relacional, estabelecida pela capacidade de gerar identificação, empatia e oferecer utilidade pedagógica aos seguidores
  • reconhecimento – valorização expressa pelo público por meio de elogios, críticas e engajamento, que valida a relevância do trabalho docente na plataforma

Esse movimento ajuda a explicar por que os entrevistados associam sua presença na plataforma à maior aproximação com os alunos e ao fortalecimento dos vínculos em sala de aula.

Por fim, o uso recorrente de humor, storytelling e referências culturais contemporâneas, amplamente mencionado nas entrevistas, reforça essa reconstrução simbólica da autoridade relacional. Conforme apontam Vizcaíno-Verdú e Abidin (2023), essas estratégias contribuem para reduzir a distância simbólica entre educador e educando, sem eliminar a assimetria própria da relação pedagógica. A autoridade não desaparece, mas é reconfigurada a partir de bases mais horizontais, próximas e empáticas, aproximando-se de perspectivas pedagógicas que valorizam o diálogo, a mediação cultural e a construção compartilhada de sentidos.

Scroll learning, eduentretenimento e aproximação professor/aluno

Os entrevistados, em sua maioria, compreendem o TikTok como um espaço de aprendizagem informal e espontânea, no qual conteúdos educativos são

encontrados de forma casual em meio a fluxos de entretenimento. Essa dinâmica, que emerge do movimento contínuo pelo feed, pode ser compreendida como uma forma de aprendizagem por rolagem (scroll learning), em que o contato com

o conhecimento ocorre enquanto o usuário navega despretensiosamente pela

plataforma. Essa percepção dialoga com a própria autodefinição do TikTok como uma plataforma de descoberta e entretenimento, com a missão de “inspirar a criatividade e trazer alegria”.

Aprendizagem por rolagem (Scroll Learning)Neste estudo, aprendizagem por rolagem (scroll learning) descreve uma forma de aprendizagem informal no TikTok, que ocorre fora de ambientes formais e combina dimensões intencionais e incidentais (Kumar; Nanda, 2024). Diferente da busca ativa, a aprendizagem por rolagem emerge da navegação contínua pelo feed, no qual o contato com conteúdos educativos acontece de forma fragmentada e espontânea. O entretenimento funciona como porta de entrada para descobertas, ampliando repertórios e despertando curiosidade.

A arquitetura do TikTok favorece essa dinâmica. Como aponta Turvy (2025), a plataforma opera com baixa barreira de entrada para criadores e usuários. Isso permite que professores produzam vídeos educativos com recursos simples, como o celular e as ferramentas nativas de edição. Acessar esse conteúdo sem buscá-lo ativamente, por meio do feed “Para Você”, o que sustenta formas de aprendizado orientadas pela curiosidade.

Nesse ambiente consolidam-se práticas de eduentretenimento, integrando informação e elementos lúdicos (Seligman; Bona, 2024). Assim, conteúdos escolares são traduzidos para as linguagens da plataforma — humor, narrativas breves, referências culturais — ampliando circulação sem substituir espaços formais.

As entrevistas indicam que esse arranjo comunicacional também favorece a aproximação entre professores e estudantes. Ao compartilhar códigos culturais e ambientes midiáticos semelhantes aos dos alunos, os docentes reduzem distâncias simbólicas e facilitam a comunicação. Essa proximidade não decorre apenas

da postura individual do professor, mas da forma como a plataforma organiza visibilidade, interação e engajamento.

Além disso, recursos como comentários, respostas em vídeo e duetos incentivam trocas diretas. Segundo Turvy (2025) e Jerasa e Ura (2025), essas ferramentas

contribuem para transformar o processo educativo em uma experiência mais participativa e responsiva, na qual estudantes se sentem autorizados a perguntar, reagir e coconstruir sentidos.

Os professores demonstram consciência dos limites dessa dinâmica. A informalidade e a proximidade na plataforma são recursos pedagógicos e de mediação cultural, não substitutos da relação escolar. A aprendizagem no TikTok funciona como porta de entrada e ampliação de repertório, mas depende da mediação pedagógica para consolidação do conhecimento no seu contexto formal.

O equilíbrio entre síntese do formato vs. densidade do conteúdo

Apesar do reconhecimento do potencial pedagógico da plataforma, os entrevistados expressam preocupação recorrente com os limites impostos pelo formato de vídeo curto. A necessidade de condensar conceitos complexos em poucos minutos aparece associada a desafios relacionados ao aprofundamento conceitual, percepção especialmente presente entre professores das áreas de exatas.

Essa tensão não invalida os usos pedagógicos descritos nos tópicos anteriores, mas explicita um paradoxo estrutural da plataforma: os mesmos recursos que favorecem o engajamento inicial e a aproximação com os estudantes também impõem restrições à profundidade da explicação.

Ramos e Oliveira (2024), baseados em Lessig (2006), argumentam que o código das plataformas funciona como regras implícitas (the code is law) que induzem comportamentos. No TikTok, o vídeo curto, a edição dinâmica e a resposta rápida exigem mensagens diretas, visuais e facilmente assimiláveis. Conteúdos que demandam explicações longas ou maior atenção enfrentam dificuldades de engajamento, enquanto narrativas alinhadas à linguagem da plataforma tendem a ter mais sucesso.

A maioria do relatos dos professores e professoras entrevistadas indicam, no entanto, uma consciência clara desse dilema. Longe de atribuírem ao TikTok a função de substituir espaços formais de ensino, os entrevistados descrevem a plataforma como um dispositivo de engajamento inicial, curiosidade e mediação cultural. Assim, o valor pedagógico da plataforma reside menos na consolidação do aprendizado e mais em sua capacidade de ativar o interesse, reduzir barreiras simbólicas e criar condições para que o conteúdo escolar circule e ganhe sentido em outros tempos e espaços educativos.

Implicações para políticas públicas educacionais

Os achados deste estudo devem ser compreendidos em um contexto no qual o ambiente digital vem sendo progressivamente reconhecido como dimensão estruturante da educação. Dados como da Tic Kids 2024 e Tic Educação 2024

indicam que mais da metade dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos utiliza o TikTok, enquanto uma parcela significativa dos estudantes recorre a vídeos e redes sociais como fonte de pesquisa escolar. Esse cenário reforça que a aprendizagem ocorre em ecossistemas híbridos, nos quais ambientes formais e informais se articulam. As políticas públicas educacionais recentes no Brasil, como a incorporação da cultura digital na BNCC e o reconhecimento da educação digital como direito, oferecem um marco relevante para compreender e potencializar essas dinâmicas.

A promulgação da Política Nacional de Educação Digital (PNED) em 2023 e a implementação da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (ENEC) indicam um esforço institucional de integrar conectividade, formação docente e educação midiática aos sistemas de ensino. No entanto, os relatos dos professores entrevistados sugerem que não só produção de conteúdo educacional em plataformas digitais, como o TikTok, bem como o seu uso para práticas pedagógicas em sala de aula, ainda ocorre de forma majoritariamente individual, pouco institucionalizada e com limitado reconhecimento formal. Nesse sentido, os achados do estudo apontam para a possibilidade de ampliar o escopo

dessas políticas, contemplando de maneira mais explícita a criação responsável de conteúdo educacional e de divulgação científica em plataformas digitais amplamente utilizadas por estudantes.

Além da formação, os resultados evidenciam a importância de condições materiais e estruturais para que essas práticas se desenvolvam de forma sustentável. Iniciativas como o Programa de Inovação Educação Conectada, que já garantiu repasses a dezenas de milhares de escolas, avançam na dimensão da infraestrutura e do acesso, mas os relatos indicam que professores seguem arcando individualmente com custos de equipamentos, softwares e tempo de trabalho.

Por fim, os achados dialogam com iniciativas recentes voltadas à educação midiática e ao uso consciente das tecnologias, como a Estratégia Brasileira de Educação Midiática e as diretrizes associadas à Lei nº 15.100/2025. Ao evidenciar tanto o potencial pedagógico quanto os limites do TikTok como espaço de aprendizagem informal, o estudo sugere que políticas públicas podem se beneficiar de abordagens integradas que também promovam formação docente e valorização de conteúdos educacionais. Reconhecer o digital como território pedagógico implica fortalecer práticas responsáveis de ensino e divulgação do conhecimento em ambientes já centrais na vida cotidiana de crianças e jovens.

Conclusões

O que buscamos responder com este estudo?

Investigamos como professores e professoras brasileiras do ensino fundamental, médio e de cursinhos pré-vestibulares vêm utilizando o TikTok como prática complementar ao trabalho pedagógico, explorando vídeos curtos para produzir e circular conteúdos escolares, dialogar com estudantes e experimentar novas

formas de mediação educativa. A partir das experiências de docentes que atuam no TeachTok, buscamos compreender como esses conteúdos são produzidos, o que motiva sua presença na plataforma, como equilibram rigor pedagógico e as lógicas de visibilidade da plataforma, e de que maneira o TikTok é percebido como espaço de aprendizagem e aproximação com os alunos.

E o que encontramos?

As entrevistas revelam que o TeachTok opera como espaço de mediação cultural, onde docentes articulam conteúdos às linguagens da plataforma, ampliando o alcance escolar entre jovens.

Suas percepções apontam reconfiguração da autoridade docente no digital. A autoridade torna-se relacional, baseada em identificação cultural, presença recorrente e utilidade do conteúdo. Isso reduz distâncias simbólicas entre professores e alunos, fortalecendo vínculos em sala.

O estudo, ainda, evidencia que o TikTok funciona como espaço de aprendizagem por rolagem (scroll learning), em que o contato com conteúdos educativos ocorre espontaneamente em fluxos de entretenimento. Assim, a arquitetura da plataforma favorece o eduentretenimento, permitindo que conteúdos escolares dialoguem com referências culturais dos estudantes sem substituir os espaços de aprofundamento da educação formal.

Embora não nomeado explicitamente, o letramento midiático emerge como prática transversal. Ao produzir conteúdos, lidar com as lógicas de funcionamento do TikTok, adaptar linguagens e refletir sobre engajamento e limitações de suas produções,

os docentes desenvolvem competências relacionadas ao uso e conhecimento das lógicas das plataformas digitais e à produção responsável de conteúdo.

Por fim, os entrevistados reconhecem limites estruturais do TikTok. O formato curto impõe restrições ao nível de aprofundamento dos conteúdos. Essa percepção indica uma compreensão clara: o TikTok é mobilizado como dispositivo de engajamento inicial, curiosidade e mediação cultural, algo que pode ser complementar aos processos educativos formais.

E por que isso importa?

Ao ouvir professores da educação básica e cursinhos pré-vestibulares, este estudo contribui para debate qualificado sobre plataformas digitais na educação. A análise sugere que o valor pedagógico do TikTok reside na capacidade de aproximar atores, ativar interesses e ampliar repertórios, desde que seus limites sejam reconhecidos e seu uso articulado a práticas pedagógicas amplas. O TeachTok apresenta-se como campo de experimentação que reflete tensões e possibilidades da aprendizagem em ambientes digitais.

Nesse contexto, os achados também dialogam com a agenda recente de educação digital no Brasil, indicando que o reconhecimento do ambiente digital como espaço complementar de aprendizagem pode se beneficiar de políticas públicas que valorizem a mediação docente, a educação midiática e a produção responsável de conteúdos educacionais em plataformas digitais.

Direcionamentos para estudos futuros

Este estudo qualitativo exploratório reuniu sete professores do TikTok para compreender suas percepções sobre a plataforma, práticas pedagógicas digitais e desafios na produção de conteúdo. O objetivo central foi dar protagonismo às vozes docentes em um cenário de uso crescente de plataformas digitais na educação, promovendo um espaço de escuta qualificada e reflexão sobre o papel do TeachTok no ecossistema educacional brasileiro.

Embora as entrevistas tenham identificado tendências, consensos e tensões relevantes, os resultados não esgotam o debate. Há espaço para estudos futuros aprofundarem a relação entre tecnologias digitais, práticas pedagógicas e aprendizagem mediada por plataformas.

Entre os possíveis direcionamentos para estudos futuros, destacam-se:

Perspectivas dos estudantes sobre aprendizagem no TikTok: O presente estudo concentrou-se exclusivamente nas percepções e práticas dos professores, sem incluir a perspectiva dos estudantes. Pesquisas futuras podem investigar como alunos percebem, consomem e se engajam com conteúdos educacionais na plataforma,

explorando seus hábitos de uso, estratégias de curadoria, percepções sobre credibilidade docente no ambiente digital e impactos efetivos desses conteúdos em seus processos de aprendizagem.

Análise de conteúdo e formatos pedagógicos nos vídeos: Este estudo baseou-se em autorrelatos sobre práticas de produção, sem análise direta dos vídeos publicados pelos professores. Trabalhos futuros podem realizar análises sistemáticas dos conteúdos educacionais circulantes no TeachTok brasileiro, investigando estratégias discursivas, recursos visuais e sonoros, adequação pedagógica dos formatos, precisão conceitual das informações e alinhamento com currículos oficiais.

Estudos quantitativos de alcance e engajamento: Considerando a amostra reduzida e o caráter qualitativo desta pesquisa, estudos futuros com abordagem quantitativa podem mapear em larga escala o universo de professores brasileiros produtores de conteúdo educacional, analisando métricas de alcance, engajamento, perfis de audiência e padrões de viralização, contribuindo para uma compreensão mais abrangente da dimensão e dos efeitos do TeachTok no contexto nacional.

Impactos efetivos na aprendizagem formal: Este estudo explorou percepções sobre aprendizagem, mas não mensurou impactos diretos nos resultados educacionais dos estudantes. Pesquisas futuras com desenho experimental ou quase-experimental podem investigar em que medida o uso de conteúdos do TikTok como recurso pedagógico complementar influencia indicadores de desempenho, retenção de conhecimento, motivação para o estudo e engajamento em sala de aula.

Estudos longitudinais sobre trajetórias docentes digitais: Os dados foram coletados em um recorte temporal específico, refletindo um momento pontual da relação entre professores e a plataforma. Estudos longitudinais podem acompanhar trajetórias de professores ao longo do tempo, examinando como suas práticas, percepções e estratégias de produção evoluem, bem como os efeitos de mudanças algorítmicas, de políticas da plataforma e de contextos educacionais mais amplos.

Em conjunto, esses direcionamentos reforçam a necessidade de aprofundar o diálogo entre professores, estudantes, plataformas digitais e instituições educacionais, consolidando uma base empírica que sustente o desenvolvimento de práticas pedagógicas digitais informadas, éticas e promotoras de aprendizagem significativa.

Referências

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Anexo de metodologia Reglab

Título Arrasta pra Cima e Aprende! Práticas docentes e e aprendizagem no TikTok.
Pergunta de pesquisa Como professores do ensino fundamental, médio e de cursinhos pré-vestibulares utilizam o TikTok para produzir conteúdo educacional, promovendo práticas de letramento midiático e engajamento entre jovens estudantes?
Resumo de metodologia Este estudo adotou uma abordagem qualitativa com o objetivo de compreender como professores brasileiros da educação básica e de cursos pré-vestibulares utilizam o TikTok em suas práticas pedagógicas. A pesquisa investigou a produção de conteúdo educacional, engajamento e visibilidade na plataforma.
A coleta de dados foi estruturada em duas etapas: (1) mapeamento exploratório de perfis de professores que produzem conteúdo educacional no TikTok, com registro de dados quantitativos; (2) entrevistas em profundidade semiestruturadas com 8 professores.
A análise dos dados ocorreu por meio de análise de conteúdo com categorização temática das entrevistas a partir de suas transcrições.
Coleta de dados Para o mapeamento exploratório de perfis foi realizada uma busca sistemática na aba de pesquisa do TikTok utilizando os termos “professor/professora da [disciplia]”, “aula de [disciplina]” e “dicas de [disciplina]”, contemplando as seguintes áreas: português, inglês, matemática, física, química, geografia, história, literatura, sociologia e filosofia. Complementarmente, foram utilizadas as palavras-chave “sala de aula”, “videoaula” e “professor/professora” para ampliar o alcance da busca.
A amostra foi composta seguindo critérios de diversidade e representatividade. Os critérios de seleção estabelecidos foram: (1) professores que atuam em salas de aula da educação básica ou de cursinhos pré-vestibulares; (2) perfis que divulgam conteúdo educativo, educacional ou informativo relacionado às suas disciplinas de ensino.
A seleção dos participantes combinou busca ativa na plataforma TikTok como estratégia principal, complementada por amostragem por conveniência. O contato foi realizado por meio das redes sociais disponibilizadas pelos professores em seus perfis (Instagram, e-mail ou mensagem direta no TikTok). Das 54 pessoas mapeadas e contatadas, 8 aceitaram participar da pesquisa e foram entrevistadas no período entre 04/11/2025 e 12/01/2026. Das 8 entrevistas realizadas, uma foi descartada por não atender ao critério de atuar simultaneamente em sala de aula e na produção de conteúdo para o TikTok.
As entrevistas foram realizadas em formato online, com duração média de 45 minutos cada e abordaram temas relacionados às estratégias pedagógicas adotadas na plataforma, ao processo de produção de conteúdo, à relação com alunos e às percepções sobre ensino, visibilidade e engajamento no ambiente digital. A dinâmica foi conduzida pela equipe de pesquisa do Reglab e registrada em áudio, mediante autorização expressa dos participantes por meio de termo de consentimento livre e esclarecido. As gravações foram integralmente transcritas e armazenadas.
A dinâmica das entrevistas foi conduzida a partir de um roteiro semiestruturado, combinando questões amplas de engajamento com perguntas mais específicas sobre os seguintes temas: estratégias pedagógicas adotadas na produção de conteúdo, processo criativo e técnico de produção de vídeos, relação com alunos e seguidores na plataforma, percepções sobre o papel educacional do TikTok, desafios de visibilidade e engajamento, e impactos da presença digital na prática docente presencial.
Análise de dados Neste estudo, adotamos a análise temática reflexiva proposta por Braun e Clarke (2006), método apropriado para investigações qualitativas exploratórias em cenários de grande complexidade. Esse método prioriza a interpretação situada dos dados em detrimento de uma codificação rígida e exaustiva, favorecendo estratégias analíticas flexíveis e recursivas.
As entrevistas foram, inicialmente, analisadas por duas pesquisadoras, que destacaram dentre a íntegra das transcrições, os temas mais comuns e frequentes entre as falas dos participantes, validando-os com o auxílio da ferramenta NotebookLM. Uma vez
definidos, procedeu-se à codificação com base nos temas iniciais, resultando nos tópicos apresentados nesta pesquisa.
As transcrições integrais das entrevistas foram processadas e codificadas no software Atlas.ti, e os códigos foram revisados pelas duas pesquisadoras responsáveis pela pesquisa, processo que assegurou a consistência e confiabilidade interpretativa, garantindo a aderência ao corpus empírico original.
A etapa de análise foi conduzida entre 12 de dezembro de 2025 e 18 de dezembro de 2025.
Procedimentos de redução de vieses Referências teórico-metodológicas consolidadas: as técnicas de coleta e análise de dados adotadas neste estudo seguiram práticas reconhecidas na literatura acadêmica. A abordagem metodológica foi discutida internamente antes e após a realização das entrevistas, permitindo a incorporação de críticas e sugestões ao desenho final da pesquisa, antes do início do processo de análise.
Ferramenta complementar de checagem: embora a codificação inicial dos dados tenha sido conduzida pela equipe de pesquisa, foi utilizado um software de apoio analítico (NotebookLM) como ferramenta de verificação cruzada, com o objetivo de validar a consistência das categorias identificadas e detectar eventuais lacunas interpretativas que pudessem ter passado despercebidas na codificação inicial.
Triangulação de métodos: na seção de análise e comentários, os achados empíricos foram contrastados com análise documental de fontes secundárias, com o objetivo de comparar, validar e reforçar a consistência das interpretações construídas a partir das entrevistas. Essas referências, quando utilizadas, foram expressamente citadas ao longo do texto.
Dupla análise independente: duas pesquisadoras revisaram o conjunto de códigos e temas de forma cruzada, reduzindo vieses individuais. A definição final dos temas foi realizada em discussão coletiva com outros dois pesquisadores da equipe Reglab,
assegurando múltiplas perspectivas e controle de vieses individuais na interpretação dos dados.
Registro e transparência metodológica: todas as etapas do processo analítico foram documentadas, incluindo versões sucessivas dos arquivos de redação. Essa prática permite a rastreabilidade do percurso metodológico, conforme as diretrizes do Reglab para transparência e replicabilidade.
Outras Limitações Metodológicas Dependência de ferramentas externas: parte do processo analítico dependeu do uso e do desempenho de softwares proprietários, o que pode limitar a replicabilidade em contextos diferentes.
Escopo qualitativo e caráter exploratório: os achados deste estudo derivam de sete entrevistas em profundidade com professores que produzem conteúdo educacional no TikTok. As narrativas oferecem profundidade analítica e riqueza interpretativa, mas não têm pretensão de representatividade estatística.
Taxa de resposta e amostra reduzida: das 54 pessoas contatadas, apenas 8 aceitaram participar da pesquisa (taxa de resposta de aproximadamente 13%), sendo que uma entrevista foi descartada por não atender aos critérios de inclusão. A baixa taxa de resposta e o tamanho reduzido da amostra podem ter introduzido vieses, uma vez que professores que optaram por não participar podem ter perspectivas, experiências e motivações distintas daqueles que se disponibilizaram para as entrevistas.
Ausência de triangulação de dados primários: o estudo baseou-se exclusivamente em entrevistas, sem análise complementar dos vídeos produzidos pelos professores,
observação direta de práticas pedagógicas ou consulta a outras fontes de dados primários que pudessem enriquecer ou validar os relatos coletados.
Dependência de autorelatos: os dados foram obtidos por meio de narrativas dos próprios professores sobre suas práticas, percepções e experiências, sem observação direta do trabalho docente em sala de aula ou análise do engajamento real dos alunos com os conteúdos produzidos. Essa dependência pode ter introduzido vieses de desejabilidade social ou de memória.
Ausência da perspectiva dos estudantes: o estudo não incluiu entrevistas ou outras formas de coleta de dados com alunos, limitando a compreensão sobre como os estudantes percebem e se engajam com os conteúdos educacionais produzidos por seus professores no TikTok, bem como sobre os efeitos dessa mediação pedagógica em seus processos de aprendizagem.
Recorte temporal: os dados foram coletados entre novembro e dezembro de 2025, em um contexto específico de uso da plataforma e de práticas pedagógicas. Considerando a rápida transformação das dinâmicas de plataformas digitais e das práticas educacionais mediadas por tecnologia, os achados refletem o cenário vigente naquele período, o que pode limitar sua validade temporal em análises futuras.
Uso de software Os softwares utilizados no desenvolvimento deste estudo foram:
Suite MS Office para edição de texto, planilhas e gráficos;
Suite Adobe C para diagramação e finalização de gráficos e ilustrações;
Atlas.ti para organização, codificação e análise dos dados qualitativos; Microssoft Teams e Cockatoo para transcrição de áudio da dinâmica de grupo focal em texto;
ChatGPT 5o para brainstorm, sistematização de informações, revisão gramatical (ortografia, gramática e busca de sinônimos), adequação da linguagem e adequação ao Manual de Redação Reglab;
Notion AI para organização da pesquisa e estruturação de cronograma;
Exolyt para coleta de dados sobre vizualizações de hashtags no tiktok;
Diretrizes éticas Financiamento da pesquisa: esta publicação foi patrocinada pelo Tiktok Brasil (BYTEDANCE BRASIL TECNOLOGIA LTDA.). Embora se trate de um estudo contratado, o Reglab manteve controle editorial e metodológico integral sobre o projeto, com definição autônoma da metodologia, análise dos resultados e redação do presente relatório de pesquisa. Os autores preservaram total independência profissional e assumem integral responsabilidade pelo conteúdo e pelas conclusões apresentadas.
Tratamento de dados pessoais: a pesquisa envolveu o tratamento de dados pessoais apenas nas etapas de coleta e análise, de forma limitada e proporcional aos objetivos do estudo, em conformidade com a Lei 13.709/2018 (LGPD).
Base legal: todos os participantes autorizaram formalmente sua participação mediante assinatura de termo de consentimento, com ciência sobre os objetivos da pesquisa e sobre o uso dos dados.
Finalidade e adequação: os dados foram utilizados exclusivamente para os fins desta pesquisa, de acordo com o consentimento obtido, não sendo empregados para outras finalidades.
Minimização e anonimização: informações pessoalmente identificáveis que não eram relevantes para os objetivos do estudo foram anonimizadas nas transcrições e excluídas da base ativa.
Sigilo e confidencialidade: na apresentação dos resultados, os dados foram mantidos sob sigilo e as citações foram ajustadas, quando necessário, para preservar a
confidencialidade das fontes. Apenas um número restrito de pesquisadores diretamente envolvidos no projeto teve acesso aos dados pessoais e documentos originais.
Registro e segurança da informação: os arquivos foram armazenados mediante controle de acesso por senha e em conformidade com as políticas internas de segurança da informação do Reglab.
Retenção e descarte: os dados serão armazenados por até 12 meses, exclusivamente para fins de auditoria metodológica e eventual replicação, sendo posteriormente eliminados.
Uso responsável de dados públicos: embora alguns dados analisados sejam públicos, seu uso foi realizado de maneira responsável e ética, com o objetivo exclusivo de pesquisa independente.
Transparência metodológica: a metodologia de pesquisa foi descrita de forma detalhada para assegurar transparência e replicabilidade, contribuindo para a integridade científica e possibilitando a validação independente dos resultados.
Não Discriminação e Respeito à Diversidade: a pesquisa foi conduzida de modo a respeitar a diversidade e a evitar qualquer forma de discriminação.

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