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Reglab

Inteligência do Sul Global

Transformando a tradição brasileira de pesquisa em uma ferramenta global para entender a governança tecnológica

Enquanto a maioria dos sistemas globais de pesquisa se apoia na generalização quantitativa, a América Latina dominou a arte da profundidade qualitativa. A tradição brasileira de estudos de audiência e de recepção — enraizada no cotidiano, na hibridez cultural e na agência coletiva — oferece uma lente singular para compreender tecnologia e regulação.

Ao combinar a profundidade etnográfica da pesquisa latino-americana com a precisão analítica de métodos regulatórios e econômicos, essa abordagem capta os significados por trás dos dados — revelando como as tecnologias são de fato vividas, e não apenas implementadas.

Além dos números

Todos os anos, novas pesquisas mapeiam a opinião pública sobre tecnologia. Percentuais sobem e descem, manchetes se sucedem, e políticas públicas se ajustam. Mas, por trás desses números, algo sempre parece não encaixar.

As pessoas dizem que desconfiam da tecnologia, mas os níveis de uso continuam a aumentar. Dizem temer a automação, mas acolhem seus resultados. Dizem valorizar a privacidade, enquanto ao mesmo tempo se irritam com banners de cookies.

Os dados são precisos, mas incompletos: capturam atitudes, não significados. O que parece rejeição muitas vezes esconde algo mais complexo: lacunas de letramento digital, disputas por agência e, sobretudo, uma negociação contínua, em que cidadãos redefinem o tempo todo o que “justiça”, “controle” ou “inovação” realmente significam no dia a dia.

Tradicionalmente, os modelos de políticas públicas e de pesquisa de mercado do Norte Global se baseiam em mensuração: explicam o quanto as coisas acontecem e com que frequência. Atitudes viram números, símbolos prontos para uso, facilmente transformados em gráficos, índices e rankings. Essa abordagem tem seus méritos, mas, na era digital, ela falha cada vez mais.

A pergunta mais difícil hoje não é quantas pessoas confiam, adotam ou resistem a novas tecnologias, mas por que fazem isso.

Pesquisas quantitativas muitas vezes não conseguem capturar a textura da experiência humana: emoções, identidade e contexto — especialmente em sociedades não ocidentais ou culturalmente heterogêneas. Sem essa gramática mais profunda de significado, a regulação corre o risco de resolver o problema errado, tratando sintomas e deixando as causas de lado.

E a próxima fronteira da governança de IA, da regulação de dados e das políticas de plataformas depende de integrar significado à mensuração, entendendo não apenas o que as pessoas fazem, mas o que elas querem dizer quando fazem.

Uma tradição brasileira de pesquisa com relevância global

Nos anos 1960, o educador brasileiro Paulo Freire desencadeou uma revolução nas ciências sociais. Com ideias pioneiras sobre as dinâmicas de poder na educação — em especial sua crítica ao “modelo bancário” de ensino e sua ênfase na consciência crítica (conscientização) — Freire transformou a teoria pedagógica no mundo inteiro. Sua influência foi tão profunda que ele segue entre os autores mais citados nas humanidades e nas ciências sociais (ocupando o terceiro lugar nos rankings do Google Scholar), e seu legado pode ser visto em práticas contemporâneas como salas de aula invertidas, pedagogias de aprendizagem ativa e metodologias de oficinas participativas.

A visão de Freire, junto a ideias do teórico cultural jamaicano Stuart Hall e do pesquisador colombiano de comunicação Jesús Martín-Barbero, entre outros, teve um impacto transformador nos estudos de comunicação na América Latina. Ela motivou pesquisadoras e pesquisadores a irem além de analisar o que as pessoas veem e ouvem, passando a focar em como elas interpretam a mídia — e no que essa interpretação revela sobre poder, identidade e posição social.

Essa abordagem, conhecida como a tradição dos estudos de recepção, rompeu com as teorias behavioristas e de modernização dominantes nos Estados Unidos em meados do século XX. Em vez de tratar a mídia como uma transmissão linear de mensagens, ela a reconcebeu como cultura vivida. No seu núcleo está o conceito de mediações — os filtros sociais, culturais e pessoais por meio dos quais as pessoas reinterpretam ativamente conteúdos midiáticos, moldadas por suas rotinas, gênero, classe, geografia e identidade.

Essa tradição influenciou profundamente os métodos adotados por pesquisadores na América Latina e além. Suas principais características incluem:

  • Etnografia do cotidiano: pesquisadoras e pesquisadores vão além do conteúdo para observar como as tecnologias aparecem em rotinas, conversas e rituais sociais.
  • Entrevistas em profundidade e grupos focais como diálogo intersubjetivo: esses métodos não são usados apenas para coletar opiniões individuais, mas adaptados para capturar processos coletivos de construção de sentido.
  • Profundidade acima de escala: a tradição privilegia a densidade contextual (intensividade) em vez da generalização estatística (extensividade).
  • Integração sociocultural: a análise vai além de examinar o que textos midiáticos dizem, para entender como as pessoas agem a partir deles.

Da teoria à prática

Nos anos 1970 e 1980, os estudos de recepção começaram a ser operacionalizados para comunicação e estratégia de mercado e tiveram um papel decisivo nas novelas brasileiras (telenovelas): ajudaram roteiristas e produtores a entender como o público reagia a personagens e tramas, trazendo insights que melhoraram tanto as escolhas narrativas quanto a audiência.

O objetivo aqui é explicar como se formam a confiança, a percepção de risco, a legitimidade de políticas públicas e a resposta do público — dimensões que pesquisas quantitativas muitas vezes não conseguem captar.

O que o Reglab está fazendo é estender essa tradição metodológica para a pesquisa em políticas públicas e regulação.

Queremos entender como a confiança é construída, como o risco é percebido, por que certas políticas ganham ou perdem legitimidade e como os públicos respondem a mudanças tecnológicas e sociais de maneiras que não são facilmente quantificáveis. São essas perguntas que determinam se uma regulação funciona — não apenas no papel, mas na prática.

Caso 1: TECNOLOGIAS DE APRIMORAMENTO DE PRIVACIDADE (PRIVACY ENHANCING TECHNOLOGIES) No projeto de IA & PETs, analisamos como especialistas em IA, privacidade e cibersegurança avaliam as Tecnologias de Aprimoramento de Privacidade (PETs) em sistemas de IA. Por meio de entrevistas com especialistas, observamos que, embora as PETs reduzam riscos de exposição de dados, sua adoção depende de como são compreendidas e interpretadas. Especialistas atribuíram significados distintos, níveis variados de confiabilidade e avaliações diferentes de maturidade para cada PET, refletindo letramentos técnicos desiguais e quadros interpretativos concorrentes, que influenciam diretamente a adoção, a confiança e o valor regulatório percebido.

Caso 2: IA & SETOR INDUSTRIAL

Nosso estudo IA e Indústria no Brasil mostra que a adoção de IA na indústria depende mais de como os atores interpretam risco, confiança e legitimidade regulatória do que do desenho técnico em si. Executivos jurídicos do setor manufatureiro, de forma consistente, enxergaram a regulação não como uma barreira à inovação, mas como condição para destravá-la — exigindo segurança jurídica para acelerar. A inovação avança quando quem implementa confia que as regras são estáveis, justas e operáveis. A efetividade de qualquer marco de IA depende tanto do texto jurídico quanto de como atores estratégicos percebem seu impacto sobre confiança e responsabilização.

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