Sobre o Reglab
Somos um centro de pesquisa privado especializado no setor de mídia e tecnologia, que auxilia empresas, associações e formuladores de políticas a tomarem decisões estratégicas baseadas em dados e evidências.
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Sobre a série Fellowship de Inovação e Direitos Autorais
A série Fellowship de Inovação e Direitos Autorais abrange artigos de autores e autoras convidadas que exploram temas de governança digital, sintetizando pesquisas, apresentando evidências empíricas ou novas informações para o debate. Os artigos seguem os padrões de transparência metodológica do Reglab, sendo os textos de responsabilidade de seus autores.
Expediente
Diretor Executivo: Pedro Henrique Ramos
Diretora de Pesquisa: Marina Gonçalves Garrote
Autora: Camila Santos
Pesquisadora: Camila Santos
Diagramação Final: Larissa Camargo
Citação sugerida: SANTOS, C. Quem lucra quando a periferia cria? Direitos autorais, plataformas digitais e economia criativa. São Paulo: Reglab, 2026.
Sumário Executivo
Este estudo parte da seguinte pergunta: como criadores e criadoras das periferias vivenciam a geração de renda a partir de suas obras no ambiente digital?
Para respondê-la, foram realizadas entrevistas em profundidade com artistas e produtores que atuam em ambientes digitais. O objetivo não foi calcular valores ou comparar ganhos, mas compreender, a partir das experiências relatadas, como funcionam na prática a monetização, os direitos autorais e a relação com plataformas e intermediários. O estudo considera tanto as plataformas de streaming, onde pode haver remuneração pelo uso da obra, como Spotify e YouTube, quanto as redes voltadas principalmente à circulação e visibilidade, como Instagram e TikTok. Além delas, a cadeia envolve agentes como agregadores, distribuidoras, gravadoras, produtoras e empresários.
Os relatos indicam um padrão recorrente. A principal fonte de renda dos participantes está ligada ao trabalho direto e contínuo, como shows, serviços, publicidade ou produção sob demanda. Essa renda depende da atuação constante do criador.Já a renda associada ao catálogo de obras, como royalties e repasses pelo uso de conteúdos, aparece como instável e irregular. Segundo os entrevistados, a circulação da obra nem sempre se transforma em receita recorrente.
A pesquisa também aponta dificuldades de acesso à informação. Parte dos participantes relata não entender com clareza como os valores são calculados, quais critérios orientam os repasses ou como contestar divergências. Em alguns casos, não há documentação formal ou documentação utilizável que permita acompanhar a exploração econômica das obras. O valor gerado tende a percorrer diferentes etapas e agentes ao longo da cadeia, enquanto o criador permanece na etapa final desse processo.
Esses achados sugerem que políticas formuladas de modo amplo para economia criativa ou proteção de direitos autorais podem ter efeitos diferentes ao longo da cadeia. Além disso, os dados indicam que medidas relacionadas à transparência, ao acesso à informação e à formalização contratual podem ser relevantes para quem depende diretamente do trabalho criativo como fonte de renda.
1. Introdução
Desde meados dos anos 2000, serviços digitais como YouTube, Instagram, Spotify e TikTok passaram a organizar grande parte da circulação de música e audiovisual. Essas plataformas ampliaram o acesso à distribuição e reduziram barreiras técnicas que antes dificultavam a publicação e a divulgação de obras. Com o crescimento do streaming, difundiu-se a ideia de que seria possível alcançar grandes públicos mesmo fora das estruturas tradicionais, como gravadoras e produtoras consolidadas.
No debate público, esse movimento costuma ser associado à democratização da criação cultural. A ampliação da visibilidade e do alcance é frequentemente interpretada como sinal de inclusão econômica. No entanto, a experiência relatada por muitos criadores sugere que maior circulação não garante, por si só, estabilidade financeira ou renda recorrente. A visibilidade pode coexistir com instabilidade, dependência de trabalho contínuo e dificuldade de planejamento de longo prazo.
A literatura sobre economia criativa e serviços digitais também aponta que ampliar o acesso à circulação não significa, necessariamente, redistribuir de forma equilibrada o valor gerado pelas obras. Esses ambientes organizam regras de exibição, critérios de monetização e formas de repasse que nem sempre são transparentes para quem cria. Além disso, a remuneração tende a envolver diferentes etapas e intermediários ao longo da cadeia.
Embora a circulação de obras produzidas em territórios periféricos seja frequentemente celebrada como sinal de inclusão cultural, ainda é pouco discutido como o valor econômico gerado por essa circulação é distribuído. Os dados e debates disponíveis sugerem que a visibilidade pode crescer sem que isso se traduza, de maneira equivalente, em renda estável para quem cria.
Criação cultural como trabalho
A periferia tem sido reconhecida como espaço de intensa produção cultural e inovação. Nesse contexto, a criação cultural funciona ao mesmo tempo como expressão simbólica e como meio de geração de renda.
Música, audiovisual e outras formas de criação artística são marcadas por informalidade, instabilidade e múltiplas jornadas. Para criadores com recursos financeiros limitados, a produção autoral costuma ser combinada com prestação de serviços, atividades paralelas e trabalhos intermitentes que vão além da criação artística em si.
Nesse cenário, é importante distinguir entre renda ativa e renda patrimonial. A renda ativa resulta do trabalho contínuo e da presença do criador, aparecendo em apresentações, serviços técnicos ou produção sob demanda. Já a renda patrimonial está ligada à exploração continuada da obra, por meio de royalties, direitos autorais, licenciamento ou editoração. Trata-se da renda que pode ser gerada quando uma música é executada no streaming ou quando uma obra é licenciada, mesmo sem atuação direta do autor naquele momento.
A circulação da produção cultural contemporânea ocorre por meio de diferentes serviços digitais e agentes intermediários. Plataformas como Spotify e YouTube organizam a distribuição e podem remunerar pelo uso da obra. Redes como Instagram e TikTok atuam principalmente na visibilidade e na construção de público, com monetização mais indireta. Além dessas plataformas, a cadeia inclui agregadores, distribuidoras, gravadoras, produtoras, editoras e, em alguns casos, empresários e gestores.
Esses diferentes agentes estruturam etapas do processo de circulação e repasse de valor. Cada um exerce funções específicas, como registro da obra, distribuição para plataformas, negociação contratual ou intermediação comercial. Quando uma música é executada ou um vídeo é monetizado, a receita gerada tende a percorrer essa cadeia antes de chegar ao criador.

No ambiente das plataformas digitais, os direitos autorais são operacionalizados por sistemas automatizados de identificação e gestão de conteúdo. Na prática, isso ocorre por mecanismos como claims, strikes e bloqueios ou redirecionamentos de receita, que influenciam a circulação e a monetização das obras.Embora esses mecanismos tenham como finalidade a proteção da titularidade, seu funcionamento cotidiano nem sempre é percebido como transparente pelos criadores entrevistados. Parte relata dificuldades para compreender critérios de aplicação, cálculos de repasse e procedimentos de contestação.
Diante disso, este estudo parte da pergunta: **como criadores e criadoras das periferias vivenciam a geração de renda a partir de suas obras no ambiente digital?**Para orientar a análise, o artigo considera ainda: (i) como se organiza a relação entre renda ativa e renda patrimonial; (ii) como disputas e mecanismos automatizados de direitos autorais (claims, strikes, bloqueios) afetam circulação e repasses; e (iii) como barreiras de informação e documentação aparecem não apenas nas plataformas, mas ao longo da cadeia, afetando especialmente a aferição de renda patrimonial, como direitos autorais.
2. Metodologia
Esta pesquisa adota abordagem qualitativa e exploratória. O estudo não teve como finalidade estimar valores financeiros ou produzir generalizações estatísticas. Buscou, sobretudo, identificar padrões recorrentes nas experiências relatadas.
A estratégia metodológica combinou entrevistas em profundidade com seis criadores atuantes nos campos da música, do audiovisual e da produção cultural digital, com desk research, permitindo articular narrativas individuais com o funcionamento visível dos ambientes digitais onde as obras circulam.
Entrevistas em profundidade
O principal instrumento de coleta de dados foi a realização de entrevistas em profundidade, de caráter semiestruturado, com seis criadores atuantes nos campos da música, do audiovisual e da produção cultural digital.
Os participantes das entrevistas são provenientes de diferentes territórios periféricos do estado de São Paulo e se encontram em distintos estágios de carreira, do início à consolidação profissional, conforme a tabela abaixo. As entrevistas tiveram duração média de 60 minutos e foram conduzidas a partir de roteiro orientador estruturado em cinco eixos: trajetória e contexto territorial; formas de circulação da obra e fontes de renda; experiências com direitos autorais e sistemas de reivindicação; obstáculos à consolidação da renda patrimonial; e percepção sobre intermediação e acesso à informação.
Perfil dos participantes
| Participante |
Área de atuação |
Idade |
Gênero |
Região |
Estágio da carreira |
| P1 |
Produtor artístico |
25 |
Masculino |
São Paulo – SP |
Iniciante |
| P2 |
DJ e produtor musical |
30 |
Masculino |
Bauru – SP |
Em ascensão |
| P3 |
Multiartista (DJ, artista visual e diretor audiovisual) |
25 |
Masculino |
Barueri – SP |
Em ascensão |
| P4 |
Rapper e compositora |
25 |
Feminino |
Santos – SP |
Em ascensão |
| P5 |
Cantora e compositora de R&B |
28 |
Feminino |
São Paulo – SP |
Consolidado |
| P6 |
Cantora e compositora de sertanejo |
31 |
Feminino |
Manduri – SP |
Consolidado |
Análise dos dados
A análise foi conduzida por meio de análise temática, com identificação de padrões recorrentes nas narrativas. O procedimento envolveu:
- Pré-análise dos dados: leitura integral das transcrições.
- Identificação de padrões: organização em categorias analíticas relacionadas à monetização, direitos autorais, acesso à informação e intermediação.
- Cruzamento de informações: os dados das entrevistas foram analisados em diálogo com desk research em plataformas digitais, buscando contextualizar os relatos e compreender como práticas de circulação e apresentação pública se manifestam nos ambientes digitais.
Observação exploratória
Como estratégia complementar, realizou-se uma observação exploratória não-participante, uma desk research, de perfis públicos dos entrevistados e de criadores com características semelhantes em plataformas relevantes para circulação cultural, especialmente Instagram, YouTube e Spotify. Foram analisadas exclusivamente informações publicamente acessíveis, sem interação direta ou acesso a dados privados.
3. Resultados
A centralidade da renda ativa
Diante da dificuldade de converter a circulação da obra em renda patrimonial estável, os dados indicam que a renda ativa ocupa papel central na sustentação econômica dos criadores periféricos. Shows, apresentações, serviços técnicos, freelances, oficinas, produção para terceiros e trabalhos paralelos emergem como as principais — e, em muitos casos, as únicas fontes de renda contínua.
Entre os participantes, a renda associada diretamente ao catálogo autoral foi descrita como incerta, irregular ou insuficiente para garantir estabilidade financeira. Em contraste, atividades que exigem presença constante, disponibilidade de tempo e esforço contínuo foram apontadas como essenciais para a manutenção da vida material. A criação, portanto, gera trabalho recorrente, mas raramente gera patrimônio.
Como sintetizou um dos entrevistados: “Hoje, se eu não faço show ou não presto serviço, eu não ganho. A obra sozinha não paga as contas.” (P1)
P5, cantora e compositora em fase de ascensão com obras disponíveis nas principais plataformas digitais e com repasse via distribuidora, a monetização foi descrita como residual: *“Eu tenho, mas é isso, é uma monetização mínima.”*Em outro momento, ao ser questionada sobre sua principal fonte de renda, afirmou de forma direta: “Não, a música não é minha maior renda.” E complementa que, após um período específico em que conseguiu se manter com apresentações e projetos, sua principal renda passou a vir de outra atividade profissional: “Nos últimos dois anos a minha maior fonte tem sido principalmente a partir da minha área como comunicadora.”
Esse padrão está presente em diferentes estágios de carreira. Criadores iniciantes relataram a necessidade de combinar produção autoral com múltiplas atividades para viabilizar a sobrevivência. Já criadores com maior visibilidade descreveram rotinas marcadas por agendas intensas de trabalho, nas quais a renda proveniente de apresentações, parcerias e serviços compensa a fragilidade da monetização digital. Como destacou outro participante: “A renda vem do corre diário. Não dá pra contar com o digital como algo estável.” (P4)
A centralidade da renda ativa também se expressa na forma como os participantes organizam suas trajetórias. Em vez de planejar a carreira a partir da consolidação de um catálogo autoral, muitos relataram decisões orientadas pela demanda imediata por trabalho, priorizando oportunidades de curto prazo em detrimento de estratégias de patrimonialização de longo prazo.
Nesse sentido, a renda ativa não aparece como estratégia complementar, mas como eixo estruturante da sobrevivência econômica. A obra circula e amplia a visibilidade, mas a sustentação financeira depende do trabalho contínuo. Esse padrão, recorrente entre os participantes, ajuda a compreender um fenômeno mais amplo identificado pela pesquisa: a ascensão profissional que não se converte, necessariamente, em patrimônio.
Ascensão sem patrimonialização
Um dos achados centrais da pesquisa é a dissociação entre ascensão profissional e consolidação patrimonial entre criadores periféricos. O aumento da visibilidade, da circulação e do reconhecimento público não se converte, de forma automática, em renda recorrente proveniente do catálogo.
A maioria dos participantes relatou crescimento de público, ampliação territorial e maior inserção na cena. No entanto, a renda estruturada a partir da obra — aquela que continuaria gerando retorno mesmo sem trabalho presencial — permaneceu residual ou inexistente.
Como sintetiza (P5): “Meu trabalho chegou em muita gente, mas isso não quer dizer que eu ganho com isso. A visibilidade cresceu, mas o dinheiro não acompanhou.”
A mesma lógica aparece de forma concreta no relato de (P4), ao mencionar seu primeiro recebimento de plataforma: *“Esse ano foi o primeiro ano que eu peguei dinheiro do Paypal… 21 dólares eu peguei. Nossa, 21 dólares. Parece pouco, só que na hora ali pra mim que é um dinheirinho maneiro.”*O valor, acumulado ao longo de aproximadamente um ano e meio, foi descrito como simbólico. A própria participante reconhece a dificuldade estrutural: “É muito difícil entrar dinheiro. As pessoas têm que escutar muito, assim, repetidamente.” (P4)
A expectativa de que o catálogo passe a gerar renda recorrente existe, mas aparece associada à necessidade de “trabalhar melhor”, “divulgar mais”, “lançar mais”. Não há clareza sobre os mecanismos estruturais que determinam o retorno financeiro.
Outro participante, produtor responsável pela distribuição de artistas independentes, descreve a mesma dinâmica: “Já ganhei alguma coisa… tipo dois dólares.” (P1)
Ao explicar a engrenagem, aponta que muitos artistas não compreendem sequer os mecanismos básicos de registro: “Se você fala o que é a UBC, eles não sabem o que é.”. E complementa: “Se a distribuidora gera o ISRC, ela tem o direito do fonograma. Isso ninguém fala.” (P1)
Esses relatos ajudam a compreender que o problema não se limita à “concentração” abstrata da renda, mas envolve ao menos três camadas:
- Primeiro, há uma diluição da renda ao longo da cadeia produtiva. Entre plataformas, distribuidoras, editoras e produtoras, a obra passa por múltiplos intermediários. O artista, muitas vezes, não domina os termos contratuais nem os fluxos de repasse. Como descreve o produtor entrevistado: “Você começa a jogar o jogo sem saber as regras.” (P1)
- Segundo, há um déficit de letramento técnico-jurídico. O acesso à informação sobre registro, divisão de direitos, ISRC, execução pública e contratos não é trivial. Mesmo quando disponível, exige domínio de linguagem técnica e mediação especializada. Uma das participantes reconhece: “Eu nunca dei essa atenção pra isso… fui saber depois.” (P4)
- Terceiro, há ausência de estrutura institucional. Vários entrevistados relatam que, mesmo com talento e circulação, não possuem produtora, equipe jurídica ou assessoria especializada. P2 afirma: “Se eu tivesse uma estrutura melhor, eu sei que eu estaria em outro lugar.”
Esse ponto é decisivo. A patrimonialização exige não apenas criação, mas gestão ativa de direitos, contratos e disputas. Quando essa estrutura não existe, a ascensão amplia a exposição, mas não garante autonomia econômica.
Em alguns casos, o crescimento da visibilidade vem acompanhado de maior risco. Disputas de direitos, claims e conflitos entre distribuidoras foram mencionados como situações frequentes, especialmente quando há parcerias entre artistas vinculados a diferentes agregadores. Nesses contextos, a monetização pode ser suspensa ou direcionada a terceiros, exigindo intervenção técnica ou jurídica para contestação.
O resultado é um paradoxo recorrente: quanto mais a obra circula, mais ela gera valor no ecossistema digital — mas esse valor não retorna, necessariamente, de forma proporcional ao criador.
A síntese aparece na frase de uma participante: “Você vê sua música rodando, mas não vê retorno.” (P6)
Assim, a pesquisa indica que a dificuldade de converter criação em patrimônio não é restrita ao início da carreira. Ela persiste mesmo após reconhecimento territorial ou inserção em circuitos relevantes.
Esse achado tensiona uma narrativa amplamente difundida no discurso das plataformas, nas promessas da “economia criativa digital” e na própria estrutura da legislação de direitos autorais. A experiência empírica sugere que visibilidade e monetização operam em regimes distintos e democratização da obra não garante, por si só, inclusão econômica
A ascensão ocorre. A patrimonialização, não necessariamente.
Os dados indicam que a assimetria informacional constitui um dos fatores centrais que limitam a conversão da circulação cultural em renda patrimonial. Entre os participantes entrevistados, é recorrente a percepção de que informações relacionadas à monetização, critérios de cálculo e titularidade de direitos não são plenamente acessíveis.
Um dos participantes sintetiza essa dificuldade ao afirmar: “Eu recebo o valor, mas não sei exatamente de onde vem. Não sei qual música gerou aquilo nem como foi calculado.” (P3)
Outro relata: “Tem mês que entra dinheiro, mas eu não sei por quê. Não tenho como conferir.” (P5)
Nos relatos, essa assimetria aparece associada a diferentes pontos da cadeia de valor. No caso de plataformas de streaming com remuneração por execução de direitos autorais, os participantes mencionam dificuldade para compreender relatórios, percentuais de divisão e critérios de repasse: “O relatório vem cheio de número, mas eu não entendo como aquilo vira o que eu recebo.” (P2)
Já nas redes sociais orientadas à circulação de conteúdo, a monetização é descrita como instável e dependente de regras pouco claras: “A gente posta, viraliza, mas isso não quer dizer que vai ter retorno. O algoritmo muda e você nem sabe o que aconteceu.” (P6)
Além das plataformas, alguns relatos sugerem que a assimetria também pode envolver intermediários da própria indústria musical e de entretenimento. Um participante observa: “Eu dependo do que me passam. Não tenho acesso direto às informações.” (P4)
A consequência prática dessa assimetria é explicitada pelos próprios participantes. Como afirma uma entrevistada: “Eu consigo ganhar com show, com trabalho direto. Mas o dinheiro da música mesmo eu não sei controlar.” (P1)
Os dados sugerem, portanto, que a assimetria informacional opera como mecanismo estrutural da cadeia de monetização digital, reforçando a centralidade da renda ativa e dificultando a consolidação de renda recorrente associada ao catálogo autoral.
Ausência de documentação como padrão estrutural
Ao longo da pesquisa, emergiu de forma consistente a dificuldade de acesso a documentação clara sobre titularidade, critérios de monetização e fluxos de pagamento. Mais do que a ausência absoluta de registros, os relatos indicam a inexistência de documentação compreensível e operacionalizável pelos próprios criadores.
Como sintetiza um dos participantes: “Eu nunca entendi direito como eles calculam isso. Só aparece lá o número.” (P1)
A dificuldade de interpretação dos relatórios reforça a assimetria informacional já descrita e limita a capacidade de verificação ou contestação dos valores recebidos.
Além disso, o acesso a informações estruturantes parece depender da presença de assessoria especializada. Um participante afirma: “Quem tem advogado ou alguém que entende, consegue resolver. Quem não tem, perde.” (P3)
Essa dependência evidencia que a formalização e a compreensão contratual não estão distribuídas de forma homogênea no ecossistema analisado.
Por fim, o aprendizado sobre direitos e monetização é descrito como processo informal e reativo: “Aprendi tudo errando. Não tem manual pra quem é da margem.” (P4)
Os dados sugerem, portanto, que a ausência de documentação acessível e inteligível não se apresenta como falha individual, mas como característica estruturante da cadeia de monetização da indústria da música no contexto digital, reforçando a vulnerabilidade dos criadores na gestão de seus direitos.
4. Discussão de Resultados
Os resultados desta pesquisa contribuem para a compreensão de como desigualdades econômicas são produzidas e reproduzidas no ecossistema digital da economia criativa. Os dados indicam que a dificuldade de converter circulação da obra em renda patrimonial não decorre da ausência de talento, produção ou visibilidade, mas da forma como os mecanismos de monetização, intermediação e informação estão organizados.
Visibilidade, hope labor e limites da conversão econômica
Os achados dialogam com a literatura sobre hope labor (Gill, 2010; Duffy, 2017), que descreve formas de trabalho cultural sustentadas pela expectativa de retornos futuros associados à visibilidade. No caso analisado, a promessa de conversão da circulação em renda patrimonial mostra-se estruturalmente improvável, e não apenas adiada.
A ascensão profissional amplia a circulação da obra, mas não altera a posição do criador na cadeia de valor. A permanência na criação sustenta-se pela expectativa de inclusão econômica futura, enquanto os retornos efetivos de royalties, por exemplo, permanecem instáveis. A visibilidade, embora central para o funcionamento das plataformas, não se traduz automaticamente em autonomia econômica.
A centralidade da renda ativa observada nos dados indica que criar não equivale a acumular patrimônio. Shows, serviços e trabalhos contínuos tornam-se a principal fonte de sustento, enquanto a renda patrimonial associada ao catálogo permanece residual ou imprevisível.
Essa configuração dialoga com análises sobre desigualdade e acumulação (Piketty, 2014), nas quais a dependência exclusiva do trabalho limita a capacidade de acumulação ao longo do tempo. No ecossistema analisado, a presença de cadeias extensas de intermediação — envolvendo plataformas, agregadores, gravadoras e distribuidores — amplia a distância entre criação e remuneração.
A intermediação não elimina riscos, mas os redistribui ao longo da cadeia, frequentemente preservando nas camadas intermediárias e proprietárias da infraestrutura os ganhos mais estáveis e acumuláveis. O criador permanece dependente de trabalho contínuo, com pouca margem para consolidação patrimonial.
A assimetria informacional emerge como um mecanismo transversal que ajuda a explicar a persistência dessa dinâmica. O conhecimento necessário para operar na cadeia da indústria da música, incluindo a gestão de contratos, direitos autorais e fluxos de monetização, circula de forma desigual, frequentemente concentrado em intermediários e agentes com maior capital institucional.
Essa dinâmica dialoga com análises que compreendem plataformas e intermediários tanto como agentes regulatórios privados (Gillespie, 2018) quanto como infraestruturas centrais na organização e extração de valor no capitalismo digital (Srnicek, 2017). No campo da criação cultural, essa assimetria limita a capacidade de planejamento, contestação e organização patrimonial por parte dos criadores. Mesmo quando há ascensão profissional, o acesso pleno à informação não se materializa; o que se altera é, muitas vezes, apenas a capacidade de absorver custos decorrentes da opacidade informacional.
Assim, os resultados indicam que a desigualdade observada não se resolve por profissionalização individual ou maior exposição pública, mas está enraizada na arquitetura informacional e econômica que estrutura a indústria da música em seu contexto contemporâneo.
5. Considerações finais
Este artigo investigou como mecanismos de monetização, direitos autorais e intermediação de valor operam na experiência de criadores periféricos que atuam em plataformas digitais como Spotify, YouTube, Instagram e TikTok.
A partir de entrevistas em profundidade, identificaram-se três padrões recorrentes: a centralidade da renda ativa, a dissociação entre visibilidade e patrimonialização e a presença de assimetria informacional ao longo da cadeia de monetização.
Os relatos sugerem que a circulação da obra amplia alcance e reconhecimento, mas não garante, por si só, renda patrimonial estável ou controle sobre os fluxos de valor. A sobrevivência econômica permanece fortemente vinculada ao trabalho contínuo, enquanto a renda associada ao catálogo aparece como irregular, residual ou difícil de auditar.
Em diálogo com a literatura sobre hope labor, os dados indicam que a expectativa de retorno futuro sustenta a permanência na criação mesmo diante da instabilidade presente. A promessa de conversão da visibilidade em renda convive com a experiência concreta de dependência da renda ativa e de dificuldade de compreensão dos mecanismos de monetização.
Os achados não permitem generalizações estatísticas, mas apontam para mecanismos estruturais que merecem atenção regulatória. Políticas centradas apenas na ampliação do acesso às plataformas não enfrentam, necessariamente, barreiras informacionais, contratuais e de intermediação que limitam a consolidação de renda patrimonial. Da mesma forma, os achados sugerem que políticas expansivas na legislação de direitos autorais não necessariamente devem beneficiar criadores e criadoras periféricas, que devem continuar sendo marginalizados desse tipo de renda.
Ao deslocar o foco da visibilidade para os fluxos de valor e para o acesso à informação, o estudo contribui para uma leitura mais precisa das desigualdades na economia criativa digital.
6. Sugestões para estudos futuros
Os resultados desta pesquisa apontam para a necessidade de aprofundar a investigação sobre os mecanismos de geração e distribuição de valor na economia criativa digital.
Uma primeira agenda relevante envolve estudos quantitativos sobre fluxos financeiros entre plataformas, intermediários e criadores. Análises sistemáticas de dados de monetização e contratos poderiam dimensionar com maior precisão como a receita é distribuída ao longo da cadeia.
Outra direção promissora consiste em pesquisas comparativas entre contextos regulatórios distintos. Investigar como diferentes regimes de direitos autorais e modelos de intermediação afetam a capacidade de converter circulação em renda patrimonial pode oferecer subsídios importantes para formulação de políticas públicas.
Estudos que incorporem recortes raciais e de gênero também são fundamentais. Considerando que as periferias brasileiras são marcadas por desigualdades históricas, análises interseccionais podem esclarecer como essas dimensões atravessam o acesso à informação, a exposição a disputas autorais e a dependência da renda ativa.
Outra frente relevante diz respeito à análise geracional. Comparar trajetórias de criadores que iniciaram suas carreiras antes da consolidação das plataformas digitais com aquelas que dependem integralmente dessas infraestruturas pode ajudar a compreender transformações na relação entre criação, circulação e renda.
Além disso, investigações em outros territórios — inclusive em diferentes regiões do Brasil e em países do Sul Global — podem contribuir para avaliar em que medida os padrões identificados neste estudo se repetem ou assumem configurações distintas.
Por fim, pesquisas futuras podem examinar experiências alternativas de organização autoral e distribuição de valor, como arranjos cooperativos, modelos híbridos ou plataformas comunitárias. Explorar essas iniciativas pode ampliar o debate para além do diagnóstico das desigualdades, abrindo espaço para propostas de reorganização institucional mais equilibradas.
Ao avançar nessas direções, a pesquisa acadêmica pode contribuir para um debate mais informado sobre a economia política da criação cultural digital e sobre caminhos possíveis para fortalecer a sustentabilidade econômica de quem cria.
Referências
BRAUN, Virginia; CLARKE, Victoria. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, v. 3, n. 2, p. 77–101, 2006.
DUFFY, Brooke Erin. (Not) getting paid to do what you love: gender, social media, and aspirational work. New Haven: Yale University Press, 2017.
GILLESPIE, Tarleton. Custodians of the internet: platforms, content moderation, and the hidden decisions that shape social media. New Haven: Yale University Press, 2018.
GILL, Rosalind. Life is a pitch: managing the self in new media work. Work, Employment and Society, v. 26, n. 3, p. 428–446, 2012.
PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
Anexo de Metodologia Reglab
Título
Quem lucra quando a periferia cria? Direitos autorais, plataformas digitais e economia criativa
Pergunta de pesquisa
Como os mecanismos de monetização, direitos autorais e intermediação de valor operados por plataformas digitais influenciam a capacidade de criadores periféricos converterem circulação em renda patrimonial e autonomia econômica?
Resumo de metodologia
Esta pesquisa adota abordagem qualitativa e exploratória, com o objetivo de compreender como criadores periféricos vivenciam, na prática, a monetização de suas obras em plataformas digitais.
O estudo não teve como finalidade mensurar valores financeiros ou estimar percentuais de concentração de renda. Buscou identificar padrões recorrentes relacionados à geração de renda, patrimonialização da obra, intermediação e acesso à informação, a partir das experiências relatadas pelos participantes.
A estratégia metodológica combinou: entrevistas em profundidade, desk research em plataformas digitais e revisão bibliográfica especializada.
A análise de dados foi conduzida por meio de análise temática, com identificação de padrões recorrentes nas narrativas. O procedimento envolveu leitura integral das transcrições, codificação inicial de trechos relevantes e posterior organização em categorias analíticas relacionadas à monetização, direitos autorais, acesso à informação e intermediação.
Coleta de dados
Foram realizadas seis entrevistas semiestruturadas com criadores atuantes nos campos da música, audiovisual e produção cultural digital.
Os participantes residem em diferentes territórios do estado de São Paulo e encontram-se em distintos estágios de carreira (iniciante, em ascensão e consolidado).
As entrevistas foram realizadas pelo Google Meet, tiveram duração média de 60 minutos e foram conduzidas a partir de roteiro orientador estruturado em cinco eixos: trajetória e contexto territorial; formas de circulação da obra e fontes de renda; experiências com direitos autorais e sistemas de reivindicação; obstáculos à consolidação da renda patrimonial; e percepção sobre intermediação e acesso à informação.
As entrevistas foram realizadas com consentimento informado, gravadas e transcritas. A pesquisa adotou procedimentos de anonimização e preservação de identidade conforme solicitado pelos participantes.
Como estratégia complementar, também foi realizada uma desk research em plataformas digitais relevantes para circulação cultural, especialmente Spotify, YouTube e Instagram. A observação concentrou-se exclusivamente em informações publicamente acessíveis, como descrição de perfis, número de visualizações e presença (ou ausência) de créditos autorais visíveis. Não houve acesso a dados privados, contratos ou relatórios internos das plataformas.
A ausência de documentação organizada por parte dos participantes, como contratos sistematizados ou relatórios detalhados de royalties, foi considerada um dado empírico relevante da pesquisa.
Análise de dados
A análise foi conduzida por meio de análise temática, com identificação de padrões recorrentes nas narrativas (Braun & Clarke, 2006). O procedimento envolveu leitura integral das transcrições, codificação inicial de trechos relevantes e posterior organização em categorias analíticas relacionadas à monetização, direitos autorais, acesso à informação e intermediação.
A codificação foi realizada com apoio do software ATLAS.ti, garantindo organização e rastreabilidade das decisões analíticas. As categorias finais emergiram de forma indutiva, sendo posteriormente articuladas com a literatura sobre economia criativa, capitalismo de plataforma e hope labor.
Os dados das entrevistas foram analisados em diálogo com uma desk research em plataformas digitais, buscando contextualizar os relatos e compreender como práticas de circulação e apresentação pública se manifestam nos ambientes digitais.
Procedimentos de redução de vieses
Referências teórico-metodológicas consolidadas: as técnicas de coleta e análise de dados adotadas neste estudo seguiram práticas reconhecidas na literatura acadêmica. A abordagem metodológica foi discutida internamente antes e após a realização das entrevistas, permitindo a incorporação de críticas e sugestões ao desenho final da pesquisa, antes do início do processo de análise.
Contraste de trajetórias: utilizou-se a comparação entre participantes com diferentes trajetórias para contrastar relatos e identificar pontos de convergência e divergência. Essa análise comparativa permite distinguir o que são pontos gerais e específicos, conferindo maior robustez e abrangência às conclusões.
Codificação indutiva: adotou-se a codificação indutiva como procedimento de análise pois, diferente de uma abordagem dedutiva, na qual as categorias são definidas previamente, a técnica indutiva permitiu que os temas e padrões fossem identificados a partir dos dados brutos, evitando um viés de confirmação da pesquisadora.
Registro e transparência metodológica: todas as etapas do processo analítico foram documentadas, incluindo versões sucessivas dos arquivos de redação. Essa prática permite a rastreabilidade do percurso metodológico, conforme as diretrizes do Reglab para transparência e replicabilidade.
Outras Limitações Metodológicas
Número reduzido de participantes e impossibilidade de generalização estatística: As narrativas oferecem profundidade analítica e riqueza interpretativa, mas não têm pretensão de representatividade estatística.
Ausência de acesso a dados financeiros internos das plataformas: A pesquisa dependeu de dados públicos ou fornecidos pelos entrevistados. A dependência dessas fontes e a ausência de dados internos das plataformas podem introduzir erros ou omissões, afetando a precisão dos dados.
Inexistência de análise documental aprofundada de contratos: A ausência de documentação formal organizada por parte dos participantes, como contratos ou relatórios de monetização, limitou análises documentais mais aprofundadas, sendo essa ausência tratada como achado empírico relevante da própria pesquisa.
Uso de software
Os softwares utilizados no desenvolvimento deste estudo foram:
- Google Meet: Realização e gravação das entrevistas
- Gemini: Apoio à transcrição das entrevistas
- Google Suite (Docs, Sheets): Organização de dados, sistematização de tabelas e gestão de documentos
- ATLAS.ti: Codificação, análise temática e organização dos dados qualitativos
- ChatGPT: Apoio editorial e padronização textual
Diretrizes éticas
Tratamento de dados pessoais: a pesquisa envolveu o tratamento de dados pessoais apenas nas etapas de coleta e análise, de forma limitada e proporcional aos objetivos do estudo, em conformidade com a Lei 13.709/2018 (LGPD).
Base legal: todos os participantes autorizaram formalmente sua participação mediante assinatura de termo de consentimento, com ciência sobre os objetivos da pesquisa e sobre o uso dos dados.
Finalidade e adequação: os dados foram utilizados exclusivamente para os fins desta pesquisa, de acordo com o consentimento obtido, não sendo empregados para outras finalidades.
Minimização e anonimização: a pesquisa foi conduzida de acordo com princípios éticos fundamentais. Os participantes tiveram suas identidades preservadas por meio de anonimização, e nenhum dado sensível foi coletado ou divulgado.
Sigilo e confidencialidade: na apresentação dos resultados, os dados foram mantidos sob sigilo e as citações foram ajustadas, quando necessário, para preservar a confidencialidade das fontes. Apenas a pesquisadora diretamente envolvida no projeto teve acesso aos dados pessoais e documentos originais.
Uso responsável de dados públicos: embora alguns dados analisados sejam públicos, seu uso foi realizado de maneira responsável e ética, com o objetivo exclusivo de pesquisa independente.
Transparência metodológica: a metodologia de pesquisa foi descrita de forma detalhada para assegurar transparência e replicabilidade, contribuindo para a integridade científica e possibilitando a validação independente dos resultados.
Não Discriminação e Respeito à Diversidade: a pesquisa foi conduzida de modo a respeitar a diversidade e a evitar qualquer forma de discriminação.